Manuela Alves

February 23, 2006

Filed under: Contos — manuelalves @ 8:28 pm

 

Por vezes mostrou-se tão distante que sentia quase como se fosse impossível tocá-lo. Sempre brincalhão, gostava de ligar no meio do dia só para perguntar se estava tudo bem, mas ultimamente havia entrado numa fase de mudez e estatização. Era incrível a sua transformação. Há tempos eu havia percebido que ELA lhe fazia mal e sentia como se no fundo ele também já houvesse se dado conta disso. Eu não queria me envolver, gostava dos dois e não estava disposta a precipitar o fim da relação de ninguém. Ele que era tão independente agora estava meio que submisso, e as suas atitudes eram estranhas. Não gostava de vê-lo assim, talvez por isso permiti que se afastasse. Hoje percebo o meu engano, se eu tivesse dado o apoio que ele queria ou dito o que precisava ouvir, talvez ele não tivesse feito tantas burradas. Afundou-se em um buraco de depressão. Em seus olhos já não dá mais para ver aquele brilho de esperança. Tem o olhar de um morto. Sem emoção, sem atitude. Hoje percebo que aquelas ligações que ele fazia no meio do dia, era a sua maneira de gritar por socorro. Vai ver que não queria saber se estava tudo bem, e sim dizer que com ele estava tudo mal.

Manuela Alves

Filed under: Contos — manuelalves @ 2:20 pm

 

Hoje eu acordei pensando em você e em tudo o que nunca aconteceu.
Fantasiei bons momentos.
Palavras não ditas.
Acertos ao invés de erros.
Porque não aconteceu como imaginei?
Foi tudo uma seqüência de erros e o tempo foi impiedoso.
Passou voando e nem havia me dado conta de como fazia tempo.
É engraçado [...]
De tudo o que foi, restou apenas uma cicatriz.
Nem grande, nem pequena, mas na proporção certa.
O interessante é que infelizmente ela ainda está exposta e você está marcado em mim.
Como tatuagem, na minha pele, na minha alma.
Não houveram momentos intensos, nem uma paixão avassaladora.
Foi algo mais brando, sutil e intensamente marcante.
Já faz algum tempo, é verdade [...]
E nem sei porque mas, hoje pensei em você.

Manuela Alves
(Copyright2006 Todos os direitos reservados).

Filed under: Contos — manuelalves @ 2:16 pm

Que bela ironia do destino. De repente o passado havia construído um futuro. Com novos personagens, valores, idéias. E eu, que pensava que os ponteiros do relógio por alguma razão iriam parar. Talvez o relógio da minha vida é que estivesse com a pilha fraca, pois certamente ele havia parado.
Teimava em viver do passado, mesmo sem a mínima esperança de que isso fosse dar certo. Há meses que eu não virava a folhinha do calendário. Sempre tive amigos muito bons para consolar. E levava a vida assim, caindo, sendo consolada, levantando, caindo novamente [...]
A diferença é que todos tocavam as suas vidas e eu, teimava em viver de passado. Gostava daquele cheiro de mofo. Era história. A minha história. E eu não tinha o costume de rasgar papéis velhos. A verdade é que apesar de tudo, já me sentia um tanto exausta. Queria poder andar para frente, assim como todo mundo.
Queria juntar todo o passado em um único baú e trancá-lo com um cadeado. Não me livraria daquela tranqueira velha, cheia de passado, mas seria bom saber que tudo estava bem guardado. Só que agora, eu ainda não estava preparada para tomar esta decisão. E mesmo que a vida teimasse em me expor a uma realidade que eu não estava disposta a conhecer, levava a vida como que à margem de tudo isso. Lembrando sempre de levantar após a queda.
Já não tinha mais lágrimas ou lamentos. Caía e logo cuidava das feridas, que demoravam bastante a cicatrizar. E fazia tudo em silêncio afinal, para que dar motivos para que sintam pena de você?
Preciso de soluções, não de piedade.

Manuela Alves
(Copyright2006 Todos os direitos reservados).

Filed under: Contos — manuelalves @ 1:55 pm


Estava tão segura ultimamente que agora seria até capaz de enganar aqueles que mais a conheciam.
Sem lágrimas ou lamentos, estampava sempre aquele belo sorriso no rosto. Olhando de fora, todos julgariam que era uma pessoa feliz.
Realizada no trabalho, rodeada de amigos e com o coração aberto.
Que mais poderia querer?
Mas ontem, por um segundo, ela deixou a cortina do seu espetáculo se fechar.
E nesse tempo mínimo um bom observador poderia perceber como ela estava triste.
Foi como numa fração de segundo, onde por seu olhar passou uma névoa cheia de solidão, desespero e conformismo.
Era uma péssima mistura
E pela primeira vez, senti pena dela.
Não que ela necessitasse disso.
Era pessoa forte, determinada
Mas solitária.
Não devia ter muitos amigos, pois como explicar que ninguém houvesse percebido que ela não estava bem?
Às vezes as pessoas olham tanto para si mesmas, que nem conseguem perceber o outro.
Ela vai continuar com a sua representação.
Vai Passar pelo mundo e ninguém vai lhe ver.

Manuela Alves
(Copyright2006 Todos os direitos reservados).

Filed under: Contos — manuelalves @ 1:39 pm

Foto: João Martins
Tudo ali estava impregnado de passado.
Mas era estranho, mesmo o mofo quase destruindo os mínimos resquícios que ainda sobravam, o coração não mostrava o mínimo sintoma de aflição.
Apesar dos pesares.
Da triste história feliz.
Dos choros encobertos por falsos sorrisos.
Da dor transformada em força.
Tudo parecia nada.
Poeira que se varre para debaixo do tapete velho.
Página arrancada que ainda assim não altera o fim da história.
Final da história?
E aquela tinha fim?
Soava como piada.
Vício bobo.
Criancice da alma.
Pela primeira vez na vida, permitiu-se não estranhar.
Para que tantas perguntas?
Tudo estava como deveria estar, e não sentia vontade de querer mudar a posição das coisas.
Enfim, gostava de finais felizes.

Manuela Alves
(Copyright2006 Todos os direitos reservados).

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