Por vezes mostrou-se tão distante que sentia quase como se fosse impossível tocá-lo. Sempre brincalhão, gostava de ligar no meio do dia só para perguntar se estava tudo bem, mas ultimamente havia entrado numa fase de mudez e estatização. Era incrível a sua transformação. Há tempos eu havia percebido que ELA lhe fazia mal e sentia como se no fundo ele também já houvesse se dado conta disso. Eu não queria me envolver, gostava dos dois e não estava disposta a precipitar o fim da relação de ninguém. Ele que era tão independente agora estava meio que submisso, e as suas atitudes eram estranhas. Não gostava de vê-lo assim, talvez por isso permiti que se afastasse. Hoje percebo o meu engano, se eu tivesse dado o apoio que ele queria ou dito o que precisava ouvir, talvez ele não tivesse feito tantas burradas. Afundou-se em um buraco de depressão. Em seus olhos já não dá mais para ver aquele brilho de esperança. Tem o olhar de um morto. Sem emoção, sem atitude. Hoje percebo que aquelas ligações que ele fazia no meio do dia, era a sua maneira de gritar por socorro. Vai ver que não queria saber se estava tudo bem, e sim dizer que com ele estava tudo mal.
Manuela Alves


