Manuela Alves

August 30, 2006

CORAÇÃO DE PEDRA

Filed under: Contos — manuelalves @ 8:05 pm

As coisas andavam melhorando e então veio uma ótima notícia. Na hora lembrei de você. Queria sair correndo para te contar na mesma hora. Mas por essas coisas loucas da vida, achei melhor me conter. Esperar a hora em que chegasse em casa. Preparar a notícia melhor. Você, nos últimos tempos, havia sido a pessoa que mais me dera apoio e eu não queria trair a sua confiança contando antes a boa nova para uma outra pessoa. Vi as horas passar se arrastando. Quase que os ponteiros não se moviam. Aquela angústia acabava comigo, mas eu estava feliz demais até para brigar com o relógio. Antes do tempo correto já estava correndo para te contar. Ao chegar em casa, vi a luz apagada. O silêncio dominava o ambiente. Fiquei triste, porque havia imaginado tanto aquele momento. Desejei tanto que as coisas não haviam dado certo. De repente percebi que as coisas estavam um pouco arrumadas demais. Faltavam os seus sapatos espalhados na casa. Suas roupas jogadas no chão. Seus livros na cabeceira da cama. Os perfumes desarrumados na pia do banheiro. E foi aí que a ficha caiu. Você havia partido. Sem adeus. Levou consigo os meus sonhos, os meus planos e o meu sorriso. Meus porque com a sua atitude percebi que você nunca acompanhou os meus devaneios. Que louca eu fui. Acreditar que tudo estava às mil maravilhas. Que aquele sorriso branquinho e bonito era sincero. Que as palavras bonitas eram verdadeiras. Como pude enganar-me novamente? E como posso indagar-me com estas questões mais uma vez? É sempre assim:

Encanto, romance e decepção.

Não há como mudar o rumo das coisas. A humanidade pensa pequeno. Talvez por já haver cicatrizado tantas feridas, não senti como das últimas vezes. Não, eu não queria morrer. Bem poderia sobreviver sem você. Mas só gostaria que você soubesse que quando você levou as suas roupas, também acabou levando o meu coração. Por isso não sinto, não cobro e nem apelo. Mas não se incomode. Pode guardá-lo para si. Faça um bom uso dele e lembre-se sempre:

Ele sempre será seu.

Só que eu já aprendi a viver muito bem sem a ingratidão e as batidas descompassadas dele.

August 21, 2006

A FELICIDADE É RELATIVA!

Filed under: Contos — manuelalves @ 9:29 pm

Parei. Mas nem eu mesma sei porque parei. Talvez alguns comentários me fizeram ficar nessa estagnação. Essa moleza da alma. Esse sentimento de culpa. Uma culpa que não é minha, não é sua e não é de ninguém.

Triste eu?

Não sou!

Mas se assim pareço, não devo nada a ninguém. Se escrevo com força, com lágrimas nos olhos, com palavras tristes, não posso fazer nada. Sou assim e gosto de ser. Porém deixo claro que estas lágrimas não caem para me borrar a face e nem sempre é um sentimento meu. Eu sinto e escrevo. Verdade que muitas vezes sai de mim, mas nem isso me torna uma pessoa infeliz. Quero escrever a vida, e é isso o que eu faço. Se não consigo mostrar as nuances de alegria, sinto muito. Não gosto de colorir fatos que me parecem tão cinzas. Uma coisa eu posso garantir

[...]

Sou feliz sendo triste.

August 3, 2006

A CURA DA ALMA

Filed under: Contos — manuelalves @ 8:36 pm


Fui me moldando com as feridas da vida. Era uma criança complicada. Que esperava sempre o primeiro passo. Chorava copiosamente por qualquer bobagem. Levava desaforos para casa. Ouvia tudo calada. Lancei-me no mundo, numa tentativa maluca de absorver o maior número possível de cicatrizes. Aquelas cicatrizes que ficam nos lembrando até onde podemos ir, sem deixarmos estampada uma marca. E quando ultrapassamos os limites, o aprendizado é para a vida inteira. Hoje me jogo nos espinhos, pois os afagos não me deixam tantas experiências. Não adianta ter medo do escuro e não enfrentá-lo. A vida é assim, cruel e por mais que nos doa, é sempre bom impor a nossa vontade de enfrentar os próprios medos. Galgar degraus intransponíveis, vencer o vício da vidinha medíocre e pré-fabricada. Não tenho mais medo dos cortes, procuro-os desesperadamente. Talvez, fazendo sangrar a minha alma, eu possa renascer mais forte e completa.

August 1, 2006

O BARULHO DO SILÊNCIO

Filed under: Contos — manuelalves @ 8:47 pm

A rotina dos dias corridos tira cada vez mais as pessoas de órbita. Está ficando mesmo difícil entender os humores, os desvios de atitude, os aspectos estranhos. Acho que vivemos em alerta. Sempre esperando pelo pior. Ficamos cada dia mais ilhados em nós mesmos. Talvez por egoísmo que fingimos não ver o pedido de ajuda de alguém que está bem perto a nós. Fugimos dando uma desculpa qualquer ou mesmo um consolo insignificante. Estamos todos cegos diante dos problemas alheios. Gostamos de ser ouvidos, mas não gostamos de ouvir. Esperamos o consolo, mas não temos tempo de consolar. Queremos ajuda, mas não estamos dispostos a ajudar. É fácil pedir, difícil mesmo é doar. Parece que os ideais se dispersam, e todos se fecham dentro do seu mundinho egoísta. Todos têm problemas. A diferença é entender como cada qual lida com isso. E eu não estou aqui querendo dizer: Ah! Ninguém me ouve!

Nada disso! Não adianta procurar mensagens dentro destas linhas mal escritas. Simplesmente não existem mensagens subliminares aqui. O texto é claro: Abra os olhos e veja a vida. Enxergue as pessoas com o coração e esqueça esse relógio. Deixa de lado essa pressa. Somente hoje, escuta aquele que precisa tanto falar. Talvez amanhã seja tarde.

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