Manuela Alves

September 19, 2006

O FUTURO PERTENCE A VOCÊ

Filed under: Contos — manuelalves @ 7:32 pm

É esta folha em branco que me incomoda. Esta caneta estática. Esses dias iguais. A televisão que só passa as mesmas coisas. As mesmas pessoas de sempre que ligam. Porque ainda continuo estranhando a calmaria? Nem eu mesma sei dizer. Mas enquanto em mim habita o mais pacífico oceano, penso em como as coisas estão agora para você.

O que você fez do seu equilíbrio?

Sempre foi uma pessoa tão centrada, porque anda tão destemperado?

Sei que fico te dizendo que a vida é sempre uma questão de fases. Existem as boas e as ruins. Só que você está conseguindo transformar as ruins em péssimas. Já te disse uma vez e gostaria de repetir, não deixe que as pessoas fiquem sempre com más lembranças suas. É importante deixar um sorriso na memória de cada pessoa ao seu redor. É bacana fazer com que os seus amigos lembrem apenas dos bons momentos. Das brincadeiras fora de hora. Das risadas desordenadas. Olhe mais para você mesmo e questione se quer ser você ou se vai dar espaço a esse mal que tanto te atormenta.

Vire as páginas. Seque as feridas e abra o coração.

September 12, 2006

LÁGRIMAS DE CHUVA

Filed under: Contos — manuelalves @ 6:20 pm

Lembro bem daquele dia em que tudo terminou. Sabe, nem me dói mais. A sensação que fica é que foi tudo delírio. Ilusão. Não tiro os seus créditos. Nos demos bem enquanto durou. Na verdade, nos demos bem demais. Gostávamos das mesmas coisas. Tínhamos vários amigos em comum. Gostava de escutar as histórias que você me contava. Bem devagar. Cheias de detalhes, qualquer pessoa se irritaria ouvindo você falar. Mas eu achava o máximo. Você descrevia cada cena, era como se fosse um set de filmagens, com cada ator na sua marca de gravação. Engraçado é que eu sempre fui muito ligada a cheiros. Tem perfume que me remetem na hora a um fato ou outro. Você não me deixou essa marca. Simplesmente não tinha cheiro marcante. Mas nesses dias em que os pingos de chuva molham a minha janela eu sempre lembro de você. De como gostava da chuva e de como eu odiava e odeio até hoje. Lembro dos momentos bons. Quando gargalhávamos só em olhar um para o outro. Sem piadas ou fatos engraçados. Era assim mesmo, sorríamos como crianças bobas. Penso naquelas olhadas furtivas, em que eu sempre te surpreendia a me observar, e da sua cara de pau em continuar olhando mesmo vendo que eu já tinha percebido o seu olhar em mim. Os pingos caem na janela como se fossem lágrimas escorrendo pelo rosto de alguém. E eu lembro das muitas vezes em que você me olhou bem dentro dos olhos e disse:

Eu nunca vou te deixar.”

Nas vezes em que falávamos de morte, você mudava completamente de assunto e dizia que nem assim me deixaria. Agora, passado tanto tempo fico aqui me lembrando daqueles dias. Não porque sinto saudades, mas por perceber como as nossas palavras são vazias. Como as nossas idéias facilmente se dissolvem. Apesar da consideração que ainda sinto por você, costumo imaginar em que ponto da vida eu deixei de acreditar nas suas palavras vãs. Aquele seu olhar doce que me derretia já não me trazem boas recordações. Transmitem falsidade. Hoje, acordei olhando a chuva na janela e foi preciso lembrar de todo esse passado para tentar entender porque eu penso tanto em com quem você está e a quem você está iludindo dizendo:

Eu nunca vou te deixar.”

LIBERDADE DE PENSAMENTO

Filed under: Contos — manuelalves @ 6:15 pm

Dia desses me perguntaram como conquistar a minha confiança. Seria uma pergunta besta como outra qualquer, se eu tivesse respondido de pronto. Mas além de não conseguir responder, fiquei horas pensando no que poderia ter dito e não disse. Sei lá, talvez por ser muito desconfiada de tudo e de todos. Não sei dar confiança a qualquer um. Hoje mesmo, recebi um telefonema de um amigo, que estava todo meloso. Disparei:

- Fala logo! O que é que você quer.

A resposta?

- Nada. Só estava com saudades!

Talvez não esteja acostumada que as pessoas me tratem MUITO BEM. Somente BEM para mim, está ótimo. Esforço demais para me agradar soa falso. Mesmo que não seja essa a intenção da pessoa. É aquela coisa do dia do seu aniversário. Parabéns pra lá, parabéns pra cá e de tantos, você tira um ou dois que realmente são sinceros. E na maioria das vezes esses dois foram seus pais que disseram. Não é engraçado? Eu acho. Tenho uma multidão de amigos. Gosto de ouvir. Aconselho e os tenho no mais alto grau de consideração. Mas confiança mesmo [...]. Bem reclamam que eu nunca confio nenhum segredo. Que nunca desabafo totalmente. Fica sempre uma dúvida no ar a meu respeito. Mas isso é bacana. Para que me mostrar completamente? O legal mesmo é ser sempre uma incógnita. Só que não faço isso intencionalmente, faço porque me sinto mais segura assim. Cada um com os seus problemas e gosto de guardar os meus só para mim mesma. Se você gosta de contar, estou aqui para ouvir e ajudar, mas não me obrigue a falar. Confiança é liberdade e eu ando preferindo a prisão.

DEPOIS PIORA…

Filed under: Contos — manuelalves @ 6:05 pm

Este não foi um mês de grandes inspirações. Digo até que foi bem paradão mesmo. Tudo anda tão calmo que até fico com um pé atrás, desconfiando de tudo. As portas continuam abertas. Os amigos sem problemas. As contas estão em dia e até o dinheiro está controlado. Tenho medo de calmarias. Geralmente elas vêm seguidas de fortes tempestades. Até a mudez do telefone, que tanto me irrita durante o dia, está me deixando na defensiva. O que será que vem por aí?

Raios?

Trovões?

Relâmpagos?

Chato mesmo é não poder montar um contra-ataque. Afinal, não estou sendo atacada. E também não sei se o serei. Não há muito tempo e eu dizia sempre “depois piora”. Talvez por não acreditar em perspectivas positivas. Ou por ser pessimista por natureza. Não sei. Pensava assim. Um fato ou outro me fez observar as coisas por um novo ângulo. Não que tenha esquecido a minha antiga deixa. Apenas resolvi enterrá-la no fundo dos meus pensamentos. Só que ultimamente tudo anda tão estranho que não tenho como não resgatá-la. Espero realmente que o depois não piore, mas como negar as reviravoltas da vida? Então, se for para ficar ruim, que seja logo porque sofro de ansiedade. Estranho não? Ansiar até as coisas ruins. Mas é que acredito na brevidade dos fatos. E se for para sofrer que seja logo.

September 4, 2006

RESPEITE A MINHA LÁGRIMA

Filed under: Contos — manuelalves @ 8:20 pm

Já fazia tempo que andava inquieta. Não prestava mais atenção às conversas. Ficava com aquele olhar sempre distante. Não gostava mais de atender telefones, receber visitas e nem e-mails. Estava indisposta e indignada com a vida. Muitas vezes nem mesmo respondia o bom dia dado no trabalho, na rua, no ônibus. Talvez imaginasse que se o seu
dia não estava legal, não desejaria que o de ninguém ficasse. Em várias reuniões de trabalho, ficava rabiscando aquele bloquinho. Fazia círculos, cubos e nem prestava atenção ao que estava sendo discutido na pauta. Alheia a tudo e a todos. Nos piores dias, chegava com os olhos vermelhos e o rosto inchado de tanto chorar. E ninguém perguntava nada. Mostrava-se tão profundamente absorvida em seus próprios problemas que ninguém tinha coragem de chegar junto. De fazer um afago ou puxar uma conversa, nem que fosse conversa fiada, só para reanimá-la. Muitas vezes ensaiei um início de papo com ela, mas acabava que acontecia uma coisa e outra e eu nunca me aproximava, deixando para uma outra hora com mais calma. Como a humanidade é egoísta. Como fui mesquinha. Talvez ela só quisesse um pouquinho de atenção. Tinha lá os seus problemas e não recebia apoio de ninguém. Mas também a sociedade moderna não nos permite ter sentimentos. Não autoriza que as pessoas chorem. Ninguém pode ter problemas, depressão ou coisa do gênero. São características taxadas de fraqueza. Só porque choro quer dizer que sou um bibelô? Um vasinho pronto para quebrar? Eu quero é ter o meu direito de chorar em paz, quando e na hora que eu quiser ou sentir vontade. Quero ter o coração mole e não uma pedra no lugar dele. E quero que as pessoas não me olhem com pena, cada vez que isso acontecer. Talvez por isso eu não sentisse pena dela. Era o estado de espírito dela naquele momento. Ela estava, não era assim. Na verdade eu era solidária ao seu direito de sofrer e de ficar de mal com o mundo. Claro que não me custava nada tentar conversar com ela, e só me arrependo disso. E se ainda não o faço é por puro comodismo mesmo. Quem sabe qualquer hora dessas eu possa chegar para ela e dizer o quanto eu lhe admiro e o quanto eu não a acho uma bonequinha de porcelana altamente quebrável, só porque ela sofre. Continuarei respeitando o seu sofrimento e as suas lágrimas, mesmo não acreditando que o motivo valha a pena. Dor é igual a sapato, cada um sabe onde é que lhe aperta. E se for preciso derramar um rio de lágrimas, para aprender a nadar, que seja agora. Só os fracos morrem afogados na beira da praia, por não ter se arriscado a aprender a nadar.

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