
Lembro bem daquele dia em que tudo terminou. Sabe, nem me dói mais. A sensação que fica é que foi tudo delírio. Ilusão. Não tiro os seus créditos. Nos demos bem enquanto durou. Na verdade, nos demos bem demais. Gostávamos das mesmas coisas. Tínhamos vários amigos em comum. Gostava de escutar as histórias que você me contava. Bem devagar. Cheias de detalhes, qualquer pessoa se irritaria ouvindo você falar. Mas eu achava o máximo. Você descrevia cada cena, era como se fosse um set de filmagens, com cada ator na sua marca de gravação. Engraçado é que eu sempre fui muito ligada a cheiros. Tem perfume que me remetem na hora a um fato ou outro. Você não me deixou essa marca. Simplesmente não tinha cheiro marcante. Mas nesses dias em que os pingos de chuva molham a minha janela eu sempre lembro de você. De como gostava da chuva e de como eu odiava e odeio até hoje. Lembro dos momentos bons. Quando gargalhávamos só em olhar um para o outro. Sem piadas ou fatos engraçados. Era assim mesmo, sorríamos como crianças bobas. Penso naquelas olhadas furtivas, em que eu sempre te surpreendia a me observar, e da sua cara de pau em continuar olhando mesmo vendo que eu já tinha percebido o seu olhar em mim. Os pingos caem na janela como se fossem lágrimas escorrendo pelo rosto de alguém. E eu lembro das muitas vezes em que você me olhou bem dentro dos olhos e disse:
“Eu nunca vou te deixar.”
Nas vezes em que falávamos de morte, você mudava completamente de assunto e dizia que nem assim me deixaria. Agora, passado tanto tempo fico aqui me lembrando daqueles dias. Não porque sinto saudades, mas por perceber como as nossas palavras são vazias. Como as nossas idéias facilmente se dissolvem. Apesar da consideração que ainda sinto por você, costumo imaginar em que ponto da vida eu deixei de acreditar nas suas palavras vãs. Aquele seu olhar doce que me derretia já não me trazem boas recordações. Transmitem falsidade. Hoje, acordei olhando a chuva na janela e foi preciso lembrar de todo esse passado para tentar entender porque eu penso tanto em com quem você está e a quem você está iludindo dizendo:
“Eu nunca vou te deixar.”