Manuela Alves

October 13, 2006

O PASSADO NUNCA PASSA???

Filed under: Contos — manuelalves @ 2:35 pm

Estava tudo em seu lugar, a decisão tomada e as coisas na sua mais perfeita ordem. Os dias seguiam em total sintonia e o furacão de idéias e culpas havia sumido fazia algum tempo. Os sorrisos eram sinceros e as palavras firmes e fortes. De plena certeza e com total controle das ações, parecia ter encontrado o seu lugar ao sol. Tendo dado um ultimato em sua insegurança e na catástrofe que sempre envolvia os seus dias, mostrava-se disposta a tentar e errar. Queria experimentar o acaso. Testar os erros. Sentir o sangue correr nas veias. Pensava em sentir a adrenalina de um kamikaze e estava apenas esperando uma oportunidade para colocar o seu plano em prática. Sentia-se uma criança aprendendo a andar. Deu pequenos passos, venceu o medo, andou e depois até foi capaz de correr. Sentia a emoção de ter os dois pés bem firmes no chão. A sua libertação estava bem ali, dentro dela mesma e não via a hora de usar e abusar dela. Mas a vida é realmente uma roda viva e numa dessas coincidências reviveu um passado que já o julgava enterrado. Não que o quisesse viver novamente, mas ver todas aquelas lembranças, ali bem na sua frente, encheram a sua cabeça de tufões e trovoadas. Toda alto confiança dissipou-se em menos de um segundo. Já não sentia os pés no chão. Havia levado um tombo e ainda custava a se levantar, pois não lhe restara mais forças. Não queria acreditar e nem entender, mas já havia se dado conta de que o velho virara novo dentro de si. Como passar uma borracha no passado? Se ainda habitavam um cantinho de suas lembranças era porque havia sido importante. Não trancafiou os fatos numa caixa velha ou rasgou os rascunhos. Fez questão de mantê-los bem perto de si. Mas não queria que tais fatos guiassem o seu presente. Por isso jogou tudo em um passado mais distante do que realmente havia sido. Tratou de curar as feridas e seguir em frente. Deletando informações que pudessem, de alguma maneira, desenrolar algum fio daquele ninho de dúvidas. Vez ou outra espreitava as lembranças [...]

Eram só lembranças [...]

Boas lembranças [...]

Até ontem [...]
Até ontem.

October 9, 2006

EU E A SOLIDÃO

Filed under: Contos — manuelalves @ 11:41 pm

Como que numa maré de contradições, estou sempre reparando coisas que eu disse apenas da boca para fora. Sempre tentando acertar e remendando aquilo o que muitas vezes nem tem mais conserto. Quando digo que não preciso de ninguém, é justamente o contrário. Às vezes me sinto tão só que grito para a minha alma. Suplico ajuda às minhas lembranças. Tenho o dom de transformar devaneios em realidade. E quase sempre ela se apresenta de uma forma cruel. É nesses momentos que lembro dos sorrisos plantados no rosto de alguém. Daquelas piadas sem graça que já fazem parte da minha essência. Tem dias que acordo meio que do lado errado da cama e gostaria simplesmente de ficar quietinha, na minha. Sem ter que falar muito. Mas é tão complicado cumprir com alguns objetivos. Parece que as pessoas estão sempre reparando. É como se pudessem ver através da minha cara amarrada. E explicações de que não é nada nunca funcionam. Hoje estava assim. Querendo ficar somente em minha companhia, mas para onde corria tinha sempre alguém a me bajular. Na prática é fácil dizer que vou ser egoísta e que pensarei só em mim. Mas como negar e excluir aqueles que só querem ajudar? Como mandar desfazer um sorriso sincero que insiste em tentar me animar? É como pedir a um mendigo que recuse uma farta esmola. Não quero e nem posso fazer isso, por isso insisto em manter esta distância. Prefiro registrar a minha individualidade. Porque tem dias em que a solidão me completa.

October 2, 2006

EU, PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR

Filed under: Contos — manuelalves @ 7:01 pm

Hoje me veio aquela velha vontade ridícula de desaparecer. Não atender nenhum telefonema. Não desejar um bom dia para o porteiro do prédio. Desejo de ser invisível. E não ter que dar satisfações a ninguém. Aquele nó na garganta volta a me incomodar. E a minha luta para conter esta dor me torna ainda mais fraca. Sinto ímpetos em descontar minhas frustrações nos outros, mas ainda consigo manter um pouco de discernimento. Às vezes gostaria de ser mais egoísta. De pensar só em mim e mandar o resto para o inferno. Só que eu não sou assim. E já estou cansada de ser boazinha. Estou cheia de puxarem o meu tapete, com a cara mais cínica do mundo. Não agüento mais ter que fazer um novo curativo porque alguém resolveu pisar justo no meu calo. Aquele calo incurável, muito magoado e que nunca pára de sangrar. Porque eu posso chorar as dores alheias, mas não encontro ninguém para me oferecer ao menos um lenço ou um ombro amigo? É injusto esse mundo cheio de pessoas egocêntricas e vazias. Ninguém pensa mais na troca. Só em receber. E eu já estou esgotada em doar. Mais uma vez vou ficar aqui, derramando as minhas lágrimas dentro de mim. Impedindo-as de cair. Sei que não será o bastante para me confortar. Mas já cansei de pedir ajuda. Agora eu penso em:

Primeiro EU

Segundo: EU

E por último: EU TAMBÉM!

A pessoa boazinha que eu fui?

Vai procurar lá na esquina.

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