
Estava tudo em seu lugar, a decisão tomada e as coisas na sua mais perfeita ordem. Os dias seguiam em total sintonia e o furacão de idéias e culpas havia sumido fazia algum tempo. Os sorrisos eram sinceros e as palavras firmes e fortes. De plena certeza e com total controle das ações, parecia ter encontrado o seu lugar ao sol. Tendo dado um ultimato em sua insegurança e na catástrofe que sempre envolvia os seus dias, mostrava-se disposta a tentar e errar. Queria experimentar o acaso. Testar os erros. Sentir o sangue correr nas veias. Pensava em sentir a adrenalina de um kamikaze e estava apenas esperando uma oportunidade para colocar o seu plano em prática. Sentia-se uma criança aprendendo a andar. Deu pequenos passos, venceu o medo, andou e depois até foi capaz de correr. Sentia a emoção de ter os dois pés bem firmes no chão. A sua libertação estava bem ali, dentro dela mesma e não via a hora de usar e abusar dela. Mas a vida é realmente uma roda viva e numa dessas coincidências reviveu um passado que já o julgava enterrado. Não que o quisesse viver novamente, mas ver todas aquelas lembranças, ali bem na sua frente, encheram a sua cabeça de tufões e trovoadas. Toda alto confiança dissipou-se em menos de um segundo. Já não sentia os pés no chão. Havia levado um tombo e ainda custava a se levantar, pois não lhe restara mais forças. Não queria acreditar e nem entender, mas já havia se dado conta de que o velho virara novo dentro de si. Como passar uma borracha no passado? Se ainda habitavam um cantinho de suas lembranças era porque havia sido importante. Não trancafiou os fatos numa caixa velha ou rasgou os rascunhos. Fez questão de mantê-los bem perto de si. Mas não queria que tais fatos guiassem o seu presente. Por isso jogou tudo em um passado mais distante do que realmente havia sido. Tratou de curar as feridas e seguir em frente. Deletando informações que pudessem, de alguma maneira, desenrolar algum fio daquele ninho de dúvidas. Vez ou outra espreitava as lembranças [...]
Eram só lembranças [...]
Boas lembranças [...]
Até ontem [...]
Até ontem.

