Manuela Alves

March 28, 2007

QUERER

Filed under: Contos — manuelalves @ 5:55 pm

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Sou aquela que passa e ninguém vê…

Sou a que chamam triste sem o ser…

Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,

Alguém que veio ao mundo para me ver

E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca – Livro de mágoas

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Sentada na beira da cama, naquela manhã de domingo, ainda lembro da pergunta que outro dia você me fez. Talvez por não ter respondido. Por não ter deixado as coisas bem claras é que desde então o seu questionamento me atormenta. E era uma pergunta tão simples. Talvez por ter sido pega de surpresa, não pensei bem para responder. Devolvi com afirmações que soavam falsas e deixei você triste. E como o seu olhar de desapontamento não me sai da cabeça, agora respondo:

O que eu quero da vida?

Eu quero poder dormir e acordar sabendo que tudo vai dar certo naquele dia. Quero sonhos realizados, metas traçadas e certeza de dias melhores. Quero poder sair com meus amigos só para me divertir. Sem brigas bobas e discussões que não vão nos levar a nada. Quero sentir o sol no rosto e não me preocupar se a chuva teimar em cair para me molhar. Quero apenas chorar de felicidade e sorrir, para todos, o sorriso mais sincero que eu tiver. Quero me apaixonar por alguém que mereça e que goste de mim, para enlouquecer junto com ele, e se a paixão se esvair, ter a certeza de que tudo valeu a pena. Quero ouvir EU TE AMO e saber que é verdade. Sentir o estômago embrulhar de amor, o coração acelerar e perceber que as palavras faltam. Quero receber poesias e ouvir canções de amor lembrando de alguém. Quero cinema com pipoca e uma companhia agradável. Quero deitar nas noites frias com alguém para me aquecer o corpo e a alma. Quero lembrar de abandonar as coisas tristes e somente dizer palavras boas para as pessoas que eu amo. Quero saúde para mim e para os meus. Quero olhar nos olhos de alguém e sentir segurança e conforto nisso. Quero sair de casa e ter certeza de que vou voltar. Quero imortalidade de espírito. Quero aprender e trocar experiências com amigos e fazer o bem. Quero sonhos de chocolate, nuvens de algodão, luar prateado, fugas do passado e quero simplesmente pensar em tudo isso e depois ter alguém para desabafar.

March 27, 2007

TEUS ERROS

Filed under: Contos — manuelalves @ 7:03 pm

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“É dos loucos somente e dos amantes

na maior alegria andar chorando.”

Olava Bilac – Via Láctea

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Depois das oportunidades perdidas, gostava de mergulhar em novidades, buscava conforto naquilo que não conhecia. Jogava-se ao inexplicável, ao contraditório e principalmente ao que lhe fazia sentir medo. Era uma loucura, mas gostava de disputar consigo mesmo e travava batalhas que pareciam não ter mais fim. Alguns a chamavam de louca. Outros de corajosa. Mas, acredito que bem lá no fundo, ela era mesmo uma pessoa medrosa.

Errava tentando acertar e quando acertava sentia que havia errado. Nunca estava satisfeita consigo mesma, não que fosse pessoa muito disciplinada ou perfeccionista, só não gostava dos períodos de tranqüilidade. Bastante voluntariosa e contraditória, costumava deixar as pessoas confusas. Relacionamentos eram descartados ao mínimo sinal de calmaria. Tinha necessidade a tormentas e tempestades efusivas.

Não calava, gritava. Não dormia, atormentava-se.

Teimava em ser o centro das atenções e achava que era a dona da verdade. Nunca acreditei naquela pose de superioridade, todas as suas convicções me pareciam dúvidas supremas de uma menina brincando de ser adulta. Só que ela não percebe que o crescimento não vem do corpo ou do pensamento, o crescimento vem da alma. E infelizmente a sua pobreza de espírito não permitiu o seu crescimento. Está fadada a ser só essa criancinha mimada que teima em escrever contos de fada ao contrário.

March 22, 2007

A LIBERDADE COMEÇA EM MIM

Filed under: Contos — manuelalves @ 1:14 am

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Depois de um mês tão confuso e atropelado, estes últimos dias têm sido recompensantes. Não sei se o acúmulo de idéias, pensamentos e expectativas é que foram demais ou se ainda insisto em enxergar pelas frestas da porta. A verdade é que por ter um campo de visão tão pequeno, talvez tenha achado que via mais do que me era mostrado. Vai ver esperei mais do que aquilo que me era dado. Ou talvez não. Quem sabe eu não veja exatamente aquilo o que está alí, bem em minha frente. Às vezes acho que tudo isso que me reflete não é inventado.  

Será medo? Meu, teu, nosso […]

Apenas tenho certeza que isso já não me basta. Já foi. Passou. E mesmo que tudo tenha sido verdade, hoje nao passa de um conto ou um embuste. Vivo bem com o meu pensamento que está a todo momento me colocando em teste. E essa minha mente que não pára nunca, mesmo naqueles mmentos em que estou lá, bem quietinha. Gosto é de observar gestos, olhares. Gosto de desconstruir frases completas e imaginar elas como num disco riscado, em que sempre se suprime algumas palavras. Estas frases incompletas me aguçam a curiosidade. Gosto de ler as entrelinhas e as palavras que não foram ditas. Costumo completar frases como num jogo de palavras destes velhos livros. E, percebo cada vez mais, que o que dizemos quase nunca é aquilo o que realmente gostaríamos de dizer. A verdade sempre dói, mas o meu pensamento me liberta.

March 11, 2007

Eu não existo sem você

Filed under: Contos — manuelalves @ 5:23 am

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O vento entrou no quarto e alisou os seus cabelos. Parecia mais que eram íntimos. Observei um resquício de carinho naquele acontecimento. Te observava tão bonito. À luz do sol. À mercê do ar. Parecia tudo perfeito para aquele momento. O quarto cheio de luz. Cheio de vento. Gostava de você, é verdade, mas gostava muito mais de mim. Você ficava naquela eterna cumplicidade com o tempo. Tinha ex e não se resolvia nunca. Era uma história com fim sem final. Ao menos você não via o final. Gostava de permanecer cego. E eu nunca quis forçar você a enxergar. Ficava ali, vendo o vento acariciar os teus cabelos. Gostava de ver a sua cara de satisfação. Nunca senti tanto carinho nos teus olhos quando era eu que te agradava. Mas o vento….o vento abria possibilidades…dava idéias de algo mais, de trajetória além do amor. Abria um leque de possibilidades. E com isso, eu não podia lutar. 

March 6, 2007

COLEGAS, CONHECIDOS E…VOCÊ.

Filed under: Contos — manuelalves @ 10:22 pm

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Vivia em busca da perfeição e sempre que entrava em um projeto, só se dava por vencido quando todas as possibilidades já houvessem sido exploradas. Não admitia erros e estava sempre achando que o muito que conhecia ainda era pouco. Cobrava-se muito e por isso tinha sempre aquela linha de preocupação na testa. Doava-se inteiro a cada novo desafio e isso o tornava a pessoa mais feliz do mundo. Olhando de fora parecia tudo muito bonito e perfeito. É mais um batalhador doando sangue, suor e lágrimas pelo seu trabalho. Mas a verdade é que apesar disso, ele não estava feliz. Havia chegado num determinado ponto da vida que só isso, já não lhe bastava. Sempre fora bastante apegado aos amigos e teve que separar-se para evoluir na carreira. Ganhava bem, gostava do que fazia, mas sentia falta do passado. Lembrava com lágrimas nos olhos daquele tempo em que tudo se resumia a um sorriso no rosto e um pouco de cerveja no copo. Recordava com carinho das besteiras ditas nas mesas dos bares. Das amizades que se concretizaram naqueles balcões e que ainda conservava em seu coração. Ligava, dava notícias, deixava escapulir um pouco da sua saudade. Mas era pouco e todos nós sabíamos disso. Colegas são fáceis de reconhecer, estão nas horas mais felizes e somem quando mais precisamos deles. Amigos não, são para sempre e estão sempre dispostos a doar um pouquinho de si. Amigos de verdade, a gente só conhece aos pouquinhos. E por mais que a distância atrapalhe aquele abraço apertado, que às vezes sentimos tanta necessidade, as palavras nunca serão da boca para fora e a vontade será sempre a de partilha. E mesmo que a geografia separe os olhares, a cada retorno um amigo estará sempre de braços abertos para te acolher.  Aquelas lágrimas em teus olhos eu nunca vou conseguir esquecer. Porque ela não marcou apenas a minha lembrança, marcou a minha alma e explorou os meus sentidos. E tudo o que me restou foi a certeza de que estou no caminho certo e esta sensação tranqüila de dever cumprido.

LEMBRANÇAS DE MIM

Filed under: Contos — manuelalves @ 9:28 pm

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- SHIiiiuuuuuuuuuu!!!

- O que foi?

- Estou me escondendo.

- De quem?

- Não é de quem, é do quê.

- Tá bom, do quê?

- De tudo.

- Tudo o que?

- Dos meus problemas, dos meus medos, dos meus rancores, das minhas derrotas, e de tudo o que me faz pior.

- E o que você ganha se escondendo?

- Não ganho nada, mas ao menos me mantenho distante do mundo.

- É, se mantém distante, mas continua pensando nos seus problemas. Você não vê?

- O quê?

- Não adianta de nada tentar fugir de você.

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