O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.
Cecília Meireles – É preciso não esquecer nada
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Aquela noite me pareceu bem estranha. Tinha um clima de passado, tipo esses passados que nunca passam. Que são presente e futuro fundidos em um só. Era como se o tempo não houvesse passado. Os fatos negavam a impressão, mas a sensação era mais forte e nos forçava a absorver cada mínima sensação daquele momento. De repente, éramos criança novamente, rindo das besteiras ditas e sem um mínimo resquício de problemas. Já não existiam brigas, só brincadeiras bobas e ingênuas. E aquele quarto transpirava tranqüilidade, como antigamente. E deixou uma sensação de saudade. Tudo estava meio fora de ordem, a vida estava fora de ordem. Ultimamente tem sido assim, tipo um quebra cabeças que não pode ser completado porque a última peça está perdida. E por isso será sempre uma imagem incompleta. Sem lógica, sem nexo. Neste caso, não existe remendo. Não existe costura. E você pode me dizer:
- Mas é só uma peça.
Só que esta peça, faz toda a diferença. E então, só nos resta a esperança de que um dia ela apareça.
Sempre haverá esta possibilidade.
Sempre.

