Manuela Alves

April 17, 2007

PARTE DE UM TODO

Filed under: Contos — manuelalves @ 6:46 pm

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O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

Cecília Meireles – É preciso não esquecer nada

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Aquela noite me pareceu bem estranha. Tinha um clima de passado, tipo esses passados que nunca passam. Que são presente e futuro fundidos em um só. Era como se o tempo não houvesse passado. Os fatos negavam a impressão, mas a sensação era mais forte e nos forçava a absorver cada mínima sensação daquele momento. De repente, éramos criança novamente, rindo das besteiras ditas e sem um mínimo resquício de problemas. Já não existiam brigas, só brincadeiras bobas e ingênuas. E aquele quarto transpirava tranqüilidade, como antigamente. E deixou uma sensação de saudade. Tudo estava meio fora de ordem, a vida estava fora de ordem. Ultimamente tem sido assim, tipo um quebra cabeças que não pode ser completado porque a última peça está perdida. E por isso será sempre uma imagem incompleta. Sem lógica, sem nexo. Neste caso, não existe remendo. Não existe costura. E você pode me dizer:

- Mas é só uma peça.

Só que esta peça, faz toda a diferença. E então, só nos resta a esperança de que um dia ela apareça.

Sempre haverá esta possibilidade.

Sempre.

 

April 10, 2007

E DEPOIS, PIORA?!?

Filed under: Contos — manuelalves @ 10:52 pm

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Quem faz um poema abre uma janela.

Respira, tu que estás numa cela

abafada,

esse ar que entra por ela.

Por isso é que os poemas têm ritmo

− para que possas profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado. 

Mário Quintana – Emergência

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E porque gostava de manter os pés bem firmes no chão é que parecia sempre preocupada. Gostava de ter nas mãos as rédeas da situação. Odiava o talvez. Buscava sempre a segurança na certeza. Se em qualquer momento pairasse um resquício mínimo de dúvida, engatava a ré e num instante podia sentir os seus pés no chão novamente. E como a vida é feita de sonhos e ilusões, nem sempre foi compreendida. Sempre tinha alguém que a taxasse de medrosa. Havia também os que a achavam fingida. Até de louca ela já foi chamada. Mas e quem não é? Todos possuem a sua ânsia de loucura, basta observar bem. Gostava dos seus devaneios, mas se contentava a mantê-los desta forma, nesta categoria, a de delírios e só apenas delírios. Sonhava bastante, tanto que daria para escrever vários livros. Formava histórias inteiras em sua cabeça, por semanas a fio e depois, largava de lado, como um velho objeto que fica obsoleto. E então, começava tudo novamente. Com novas personagens e novo enredo. Tem gente que gasta tempo tentando entender os sonhos. Complica tudo e nunca percebe o real objetivo. Se fosse para entender, não seria sonho, seria realidade. E a realidade não pode ser manipulada ou simplesmente rabiscada nos pontos em que a história começa a ficar chata. A realidade é para ser bebida de um gole só. Às vezes sentimos um leve frescor suave passando pela nossa garganta e às vezes sentimos tudo arder, como ácido corroendo nossa pele e roubando a nossa voz. Essa busca pelo certo ou errado é permanente e não nos compete análises. Será sempre um ponto de vista e não a verdade absoluta. Se gosta de manter os pés no chão, ótimo. Mas se quer arriscar levantar vôo, que esteja sempre preparado para as possíveis quedas. Porque contra a lei da gravidade, ainda não podemos lutar.

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