Manuela Alves

May 31, 2007

A CHAVE É SUA

Filed under: Contos — manuelalves @ 12:21 am

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Quis nunca te perder
Tanto que demais
Via em tudo céu
Fiz de tudo cais
Dei-te pra ancorar
Doces deletérios    

E quis ter os pés no chão
Tanto eu abri mão
Que hoje eu entendi
Sonho não se dá
É botão de flor
O sabor de fel
É de cortar  
Condicional – Los Hermanos 

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Entra, fica à vontade. Pode sentar. Está tudo um pouco bagunçado ainda, mas se procurar bem, você encontra um cantinho pra ficar. Estas portas estiveram fechadas por muito tempo, por isso tem tanta poeira. É a passagem do tempo deixando seu rastro e marca por onde pede passagem. Antigamente aqui, vivia-se em festa. Os acordes da música podiam ser ouvidos bem longe. O ritmo sempre acelerado contagiava quem por aqui passava. Às vezes acontecia de um visitante nem se importar com o ritmo da canção e ficava em descompasso. Também teve vezes em que o inquilino não se importou com a morada e acabou por danificar pequenas peças e engrenagens. Esses danos marcaram profundamente a estrutura do lugar e, como você pode ver, ainda restaram algumas cicatrizes. Da última vez em que morou alguém aqui os dias não foram nada bons. As marcas foram profundas, o que acabou por corroer algumas partes do chão e hoje só restaram estes profundos buracos. Não precisa se preocupar, eu te ensino o melhor caminho para que não caia neles. Aí só cai quem não tem boas intenções, é fato! Agora que já te mostrei os prós e contras é você que vai decidir se deseja ficar. Se partir, as portas voltarão a se fechar por um longo tempo, mas se resolver ficar, será muito bem recebido e em troca só terá que cuidar bem…muito bem.

May 23, 2007

MEU INVERNO É VOCÊ

Filed under: Contos — manuelalves @ 11:29 pm

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O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

Lya Luft – Canção na plenitude

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Lá fora o tempo está tão frio e feio que a vontade que eu tenho e de não sair da cama. O céu tem tons de cinza e nem parece dia. A chuva que molha a minha janela lava o vidro e me encharca de tristeza. Não gosto dos dias de chuva. Tudo parece ficar mais lento, as horas não passam, o trânsito não anda, as pessoas não conversam. É como se cada um fosse sugado para o seu mundinho particular e o universo a sua volta não estivesse presente. Aquele firmamento que parece rir de nós, os tolos, que nos rega o corpo e leva consigo nossos devaneios. Nos rouba os sonhos e a liberdade de simplesmente iluminar o nosso dia. A chuva nos suga a disposição e o bom humor. Mas é preciso seguir adiante e mesmo debaixo de um temporal ou desta chuva fininha que insiste em cair hoje, a realidade bate à minha porta. Houve um período em que você era a minha chuva e eu sempre esperava estiar para seguir em frente, hoje não tenho mais disposição e nem vontade de esperar o seu tempo. Lanço-me à tempestade e encaro os pingos que caem insistentemente no meu rosto, misturando-se as minhas lágrimas. Talvez por isso não goste dos dias de chuva. Sorte minha ela aparecer tão pouco. Igual a você.

May 22, 2007

EU – VOCÊ = FELICIDADE

Filed under: Contos — manuelalves @ 1:01 am

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Vai depois liga diz pra sua irmã passar
Que eu vou mandar tudo que é seu que tem aqui
Tudo que eu não quero guardar
Que é pra esquecer de uma só vez
Que esse castelo só me prendeu viu!
Mas o universo hoje se expandiu!
E aqui de dentro a porta se abriu!

Do lado de dentro – Los Hermanos

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Sou refém dos meus próprios atos e pensamentos. Às vezes nem mesmo me dou conta de como eu tenho necessidade de ponderar cada atitude, cada próximo passo. Nem mesmo sei se esta atitude é boa ou ruim. Diria apenas, neste momento, que me parece prudente. Claro que existem momentos em que sinto raiva de ser assim, tão contida. Só sei que é mais forte do que eu mesma. Odeio ser magoada, da mesma maneira, odeio magoar. Só que às vezes é necessário. Às vezes precisamos ser egoístas e pensar no futuro, no eu. Gosto do nós e dou bastante valor a isso. Só que aprendi a gostar mais de mim. Costumo ser grata e não esquecer as boas atitudes. Trato bem quem assim me trata. Acontece que hoje, eu não consigo viver mais de pequenas ilusões. Quero mais. Muito mais. Quero poder acreditar naquilo que me dizem sem contestar e não ter que criar personagens que nunca existiram. Diálogos que nunca foram ditos. Olhares que nunca foram enxergados. Prefiro as verdades mais dolorosas a qualquer mínima mentira ou omissão. Amo o preto no branco e não me venha colorir com aquarela sem nem ao menos saber qual a minha cor preferida. Você não me conhece e nunca se esforçou para tal. Era sempre você e hoje eu já enxergo que posso ser apenas eu. Tarde demais? Talvez! Mas sempre é tempo para recomeçar e, me desculpa, mas vou te magoar.

May 8, 2007

O MEU SILÊNCIO GRITA

Filed under: Contos — manuelalves @ 1:37 am

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Quando o sentimento voa
Bate as asas algo de bom
Sentimento alado,
Choro chorado

Pare de reclamar da vida
Não adianta se você fez o que fez
Não adianta achar a chave pra partida
Se você não está disposto a correr

Já foi
(Lazão/Toni Garrido/Da Gama/Bino)

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Sentado ali, ao meu lado, descarregava toda a sua mágoa, toda a sua angústia. Sentimentos guardados apenas para si mesmo durante tanto tempo. Às vezes percebia que ele queria me contar alguma coisa, mas como nunca tomou a iniciativa, eu não forçava a barra. Levava os dias como qualquer um de nós. Um dia bom, um dia ruim e assim ia vivendo. Agora estava ali, na minha frente, totalmente desarmado. Sem pudores ou meias palavras. Despejando tudo o que lhe fazia mal. Eu simplesmente deixava ele falar. Não interrompia. Fingia de morta. Eram tantos fatos e ao mesmo tempo nenhum. Sentia como se ele tivesse apenas raiva de si mesmo. Não culpava o mundo, não culpava ninguém. Chorava como um menino pequeno e eu não sabia se enxugava as lágrimas ou o abraçava. Tantas vezes me senti assim, perdida, sem rumo, sem nada. Ao final do seu longo discurso, me olhou profundamente, como se esperasse alguma reação da minha parte, talvez uma palavra de consolo ou conforto. E por uns segundos eu não consegui dizer absolutamente nada. Era tudo muito novo e intenso. Eu não havia processado tanta informação. E quando finalmente recobrei o siso, ele me beijou a face, levantou e se foi. Eu fiquei ali, olhando ele andar calmamente pelas ruas, de cabeça baixa, ruminando seus pensamentos. Passei a mão no rosto, desejando afastar as últimas emoções. Levantei e segui pela noite. Mas diferente de como aconteceu em outras vezes, nunca me arrependi pelo que não fiz. Pelo que deveria ter dito e não disse. Como não tinha nada importante a falar, calei. Por isso sempre dei muito valor ao silêncio. Não digo o que não quero ouvir, e por isso, somente calo.

May 2, 2007

TIC-TAC, TIC-TAC…

Filed under: Contos — manuelalves @ 11:06 pm

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Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Pablo Neruda (Últimos Poemas)

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Depois de perder tantos momentos importantes por ficar correndo atrás de você, eu me sinto um tanto culpada pelo que deixei de viver. Fico imaginando quantas pessoas magoei por sua culpa. Quantas vezes deixei de me divertir por sua causa. As pessoas que deixei de conhecer por consentir passar algumas oportunidades. E você me fez muito mal. Lembro das várias vezes que me fez chorar e foi implacável, nunca demonstrando a mínima piedade. Corria como uma louca atrás de você e nunca chegava de verdade a mim. Não sei o motivo de ter me permitido perder tanto tempo. Sempre escorregadio, eu nunca consegui te alcançar. Gotejava por entre os meus dedos e me deixava apenas as marcas. Na face, na alma e no coração. Olho no espelho e já não enxergo mais o meu rosto. Aquela expressão de inocência e ingenuidade ficou perdida nas passadas aceleradas dos ponteiros dos segundos. Porque insiste tanto em me abandonar…tempo?

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