Manuela Alves

July 27, 2007

É ISSO!

Filed under: Contos — manuelalves @ 4:31 pm

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Em paz com a vida e o que ela me traz
Na fé que me faz otimista demais
Se chorei ou se sorri
O importante é que emoções eu vivi

Emoções – Roberto Carlos

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Pequenas ações podem transformar-se em grandes atos. Podem me chamar de medíocre, de egoísta, de inexperiente e do que bem entender, quem me conhece sabe o que eu sou e o que eu não sou. Não é a tôa que tenho e posso contar com grandes amigos. E aqueles que conhecem todas as minhas almas multifacetadas, sabe que eu só quero é ser feliz. Erro, é certo, mas sempre estou tentando acertar e mesmo quando cometo os meus deslizes foi só tentando fazer a coisa certa. Já me construí e desconstruí milhões de vezes e não me arrependo de nenhuma delas. Briguei, desfiz e refiz amizades, mas as verdadeiras sempre estiveram lá. Já me irritei com verdades e também pude irritar alguém, nem sempre gostamos do que nos dizem ou nos sentimos bem com o que temos que dizer. Aprendi a conhecer as pessoas em sua mais evidente característica. Olho nos olhos porque eles são sim a janela da alma. Às vezes tento fugir de mim mesma e finjo que certos fatos não me afetam, mas quando menos me dou conta já existe uma nova fagulha das lembranças que me esforço em tentar apagar. Quase sempre digo não quando na verdade gostaria de dizer sim e fico tentando entender porque faço tanto isso, só que eu sei exatamente o que me leva a ser tão hesitante. Chame de medo que eu vou continuar dizendo que é cautela. O telefone mudo não me incomoda, mas modifica o aspecto dos fatos e me recorda o tempo decorrido. Eu não tento me esconder em você e só queria que entendesse isso. Por enquanto eu só pretendo dormir e acordar sem ter que pensar em nada, nem me preocupar se o relógio está quase parado e o tempo custa a passar. Quero apenas ser surpreendida pelos fatos e pelas pessoas absorvendo as boas energias. Quero olhar para trás e sentir que o caminho escolhido está certo e que estou em terra firme. A impressão que fica é que amadureci em uma semana os meus muitos anos de vida.

July 24, 2007

APENAS HOJE

Filed under: Contos — manuelalves @ 6:06 pm

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Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

— não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

— mais nada.

(Cecília Meireles – Motivo)

 

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Só hoje eu preciso pensar que os problemas não existem, que a grana não está curta e que o meu quarto está cada vez mais frio. Não quero perceber os espaços vazios e essa perspectiva tão grande de futuro. Quero poder abrir as janelas e respirar o ar sem que me sinta tão sufocada. Hoje eu quero ligar a TV e ver programas bobos que me façam rir sem ter que precisar desfazer o riso insano cada vez que lembrar de um novo problema. Quero poder aproveitar o tempo vago e tentar colocar a casa em ordem, pendurar os quadros, organizar as roupas e enfileirar os livros. Quero encontrar aquele CD que eu tanto gosto e escutar milhões de vezes a mesma música sem ter que me preocupar se os vizinhos me acharão uma louca. Hoje vou aproveitar o meu surto de loucura por mim mesma e, quem sabe, preparar uma panela de brigadeiro para comer sozinha…bem quente. Quero arrumar os dias e desarrumar a vida para tentar recomeçar tudo novamente e entender de uma vez por todas as fases vividas e tudo aquilo que ainda está por vir. Só por hoje quero acreditar completamente que o crescimento começa agora e que talvez eu não tenha mais tempo para um outro surto de loucuras. Mas hoje eu posso e preciso me entregar completamente…só por hoje.

July 5, 2007

ESSA INSÔNIA QUE NÃO PASSA

Filed under: Contos — manuelalves @ 11:49 pm

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Longa é a arte, tão breve a vida.

Tom Jobim

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Da minha janela eu vejo o tempo passar, acompanho o vai e vem das crianças que aproveitam os primeiros dias de férias e escuto o meu despertador insistindo para que eu corra para não chegar atrasada no trabalho. Daqui de cima eu posso ver a rua em que moro indo se perdendo até aquela esquina distante. Daqui enxergo o meu passado e penso em meu futuro. Lembro dos sorrisos lançados ao vento e das canções que um dia cantei. Também posso lembrar das vezes em que chorei e em muitas dessas lembranças eu lembro que peguei o telefone para desabafar com alguém e que acabei deixando a pessoa muito preocupada. Também lembro que estas tristezas iam embora da mesma maneira que surgiam, do nada. Hoje eu prestei atenção naquela casa, em como o seu jardim é bonito e florido. Nem lembro se sempre foi assim. Vejo as pessoas correndo naquela pista de cooper e penso que talvez eu também devesse fazer parte delas. Correndo em círculos sempre. É a única maneira de ficar feliz sem ter que chegar a lugar algum. Agora escuto os meus vizinhos que já começam a acordar. Uma música toca bem distante e alguém arrasta um móvel, talvez uma cama preste a ser arrumada. Sinto o cheirinho doce da manhã que nasce após uma noite de inverno, em que a chuva lavou as pequenas ruas da redondeza. Escuto mais uma vez o despertador e me obrigo a seguir em frente. As muitas noites de insônia costumam me deixar fora do ar, na maioria delas escrevo para passar o tempo e ocupar a mente, mas hoje quis somente espiar da minha janela. E vi mais do que em qualquer dia poderia ter visto. Talvez eu nunca tenha me sentido tão em casa quanto hoje.

July 2, 2007

CORAÇÃO DE PEDRA

Filed under: Contos — manuelalves @ 11:09 pm

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Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Drummond – Amar.

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Andava me perguntando se existe remédio ou cura para um coração vazio. Alimentava a minha curiosidade em perguntá-lo se um dia já havia amado. O seu aspecto mais parecia que dentro do seu peito, havia um coração de pedra. Não que fosse má pessoa, mas não demonstrava sentimento algum. Pena, compaixão, amor, ódio. Tinha sempre aquela expressão pacífica e inalterada. Perambulava pelas ruas como um João ninguém. Tinha poucos amigos e os que podiam partilhar da sua companhia se consideravam pessoas de sorte. E talvez fossem realmente. Teimava em acreditar que a sua maneira de viver era errada, mas nem fui capaz de construir argumentos para lhe provar o contrário. Talvez seja necessário amar alguma coisa para sobreviver ou ainda a recíproca possa ser ainda mais verdadeira. Ele apenas não queria ir em busca de dor, sofrimento ou qualquer tipo de mal estar. Talvez a sua melhor companhia fosse mesmo a solidão. Acho até que aquele vazio que nos acomete em um domingo chuvoso ou em uma madrugada insone nunca bateu à sua porta. Aquela mesma porta que só quem possuía a chave era ele mesmo. Nunca a entregou a ninguém e apesar do tempo insistir em tentar provar que é impossível não percebê-lo, ela ainda continuava intacta e as fechaduras funcionavam perfeitamente. Se o mal destrói-se por si mesmo, o bem eterniza-se em sua prática. Ele era feliz da sua maneira e por isso despertava tanto interesse, lembro de pessoas que dariam tudo por aquela conquista, mas ele não queria ser disputado, queria ser esquecido. Só que a nossa mente é mesmo um turbilhão de loucuras. Quanto mais tentava esquecer era que lembrava dele. Mesmo sabendo que o seu coração era de pedra, sempre fiz questão de mostrar a ele que o meu é de carne.

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