Manuela Alves

August 28, 2007

TEMPO DE CRESCER

Filed under: Contos — manuelalves @ 4:24 pm

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A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria

Cora Coralina – Assim eu vejo a vida
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Agora percebia que não sabia de exatamente nada. Julgava e condenava coisas que nem se dava ao trabalho de verificar. Achava que sofria e que seus problemas eram maiores do que o de todo o mundo. Deu-se conta o quanto havia sido mesquinha, os seus egocentrismos, a sua falta de tato e até a sua pouca fé. Nem sempre confiava nas pessoas e deixou passar boas amizades. No clarear das idéias, viu que o tempo não volta atrás, a importância em deixar as coisas bem e a sutileza em expor os sentimentos a quem se ama. Entendeu que cada milésimo de segundo é único e precisava traçar novas metas. Talvez colar os cacos quebrados e edificar novas obras de arte. Recomeçar da linha de partida e não da metade da pista. Queria chegar ao ponto final com a certeza de que os obstáculos foram todos saltados sem que nenhum precisasse ir ao chão. Desejava passar uma borracha em alguns pontos do passado, mas sabia que esta seria uma tarefa impossível. Tinha a chance de escrever um novo capítulo para proporcionar um happy end, mas esquecer tudo o que passou não era possível. Renovara as energias e agradecia por ter tido tempo de perceber os erros para reparar as coisas. Era a sua segunda chance e estava mais que disposta a seguir em frente, entretanto tinha consciência que o perdão é para os mais instruídos e esclarecidos. Nem todos conseguem perdoar de coração. A sua parte seria feita sem cobranças e nem lições. Apenas faria a sua parte. Plantaria as suas sementes torcendo para que o terreno fosse fértil, e se assim o fosse, ficaria feliz em colher os frutos ofertados.

August 19, 2007

COM OS PÉS NO CHÃO

Filed under: Contos — manuelalves @ 2:06 pm

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A Bíblia já dizia

Pra quem sabe entender

Que há tempo de alegria

Que há tempo de sofrer 

Vinícius de Moraes – A bíblia

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Nem lembrava mais como foi que deu início a tudo aquilo, os bons e maus acontecimentos, mas previa que a tendência era melhorar. Há tempos sonhava com novas possibilidades e agora sentia que a realidade estava bem ali, diante dos seus olhos. Já não tinha raiva e nem más impressões de ninguém. Não se aproximava demais de abismos e procurava seguir o roteiro à risca. Não queria mais viver as histórias alheias, gostava de escrever e reescrever a sua própria. Procurava primar pela realidade e não dar oportunidade a devaneios e fantasias bobas. Agora mais do que nunca optava pelo preto no branco, mas sem joguinhos de claro e escuro, era sim ou não. Talvez agora estivesse se dando conta da responsabilidade que muitas vezes tendemos a jogar nos ombros de alguém quando nem tentamos fazer ao menos a nossa parte. Já percebia que aqueles seus pedidos não eram certos, porque não dá para cobrar confiança induzindo a traição. Hoje queria somente o que tinha. O seu fardo já era pesado demais e não estava em clima altruísta para abnegar os seus anseios. Gostaria de olhar pela janela e ver o tempo passar, tirar os sapatos, deixar as formalidades do dia a dia do lado de fora e sentir apenas que existe vida diante de tantas possibilidades. Abrir um sorriso para si mesma e acreditar que nada é em vão.

August 8, 2007

REENCONTRO

Filed under: Contos — manuelalves @ 6:06 pm

 

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Tenho aprendido que um homem só tem
o direito de olhar a outro com o olhar baixo quando
há de ajudar-lhe a levantar-se.

Gabriel Garcia Márquez

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Dia desses, me falaram da evolução de almas que eu havia provocado e ainda agora procuro entender qual a verdadeira intenção daquela frase, e na verdade eu sei bem o que quer dizer. Dia desses tirei uma tonelada das minhas costas e recebi uma mensagem e um sorriso sincero, que tornou o restante do meu dia simplesmente feliz. Dia desses saí sozinha para me descobrir novamente e percebi que os fatos e acontecimentos vão muito além do que a minha vista consegue enxergar. Daí, recebi uma ligação no meio da noite, e nem me irritei por saber que o sono não voltaria mais. Procurei por minha caixa vermelha de fotos e fiquei horas a reviver as histórias daquelas imagens com cheiro forte de passado. Achei graça das cartas e cartões que encontrei no fundo da caixa e que eu nem lembrava mais que existiam. Reli mensagens e recordei de amigos que entre um ano e outro acabaram por deixar de fazer parte da minha vida. Deitei apenas para fingir que dormia e pensei em como recolher tantos cacos quebrados. Recordei da tal evolução das almas e percebi que não faz muito tempo eu encontrei o que há muito procurava. Só que não estava na caixa ou em qualquer lugar da minha tumultuada memória. Certo, hoje eu sei que estava procurando no lugar errado e que não foram poucos os momentos em que eu pensei em desistir, mas foi necessário que eu me perdesse para só então me encontrar. Dia desses, eu me vi novamente em mim.

August 1, 2007

É TUDO LARANJA

Filed under: Contos — manuelalves @ 3:49 pm

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Eu, pessoalmente, recebo uma série de observações que poderiam até parecer desagradáveis e indelicadas. Só que não as sinto assim porque as acolho com serenidade.  

Cora Coralina  

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Aos poucos tudo estava voltando ao seu devido lugar. A frieza do local tomava ares de aconchego, as pessoas começavam a aparecer e o telefone não parava de tocar. Ainda causava certo estranhamento a mudança dos hábitos e a noite tornou-se melhor amiga da insônia, só que agora por novos motivos. A mente trabalhava vinte e quatro horas por dia a uma velocidade de duzentos e vinte por hora. Remédios e filmes já não amenizavam mais e acabou por aliar-se aos fatos. Comprou novos livros e devorava-os em um só dia. Um por noite. Como quem inspira um trago ou toma um gole. Os dias também apresentavam cores diferentes, mas sempre começava cinza e terminava nuns tons de laranja que emoldurava aquela grande varanda. Os reflexos podiam ser sentidos de todos os cômodos e apesar do forte vento frio, de final de inverno, enchia de calor toda a casa. Sentia-se livre como nunca havia sentido. Uma liberdade que sempre teve, mas que nunca soube utilizar. Agora experimentava o apoio e a aprovação pelas suas atitudes e enxergava carinho nos olhos das pessoas. A contínua distância que ainda insistia em manter de alguns era só para aproximar-se mais de si mesma e observava que a meta estava sendo alcançada. Explicou diversas vezes como se sentia e como gostaria de sentir-se. Nem sempre foi compreendida. Apenas precisava jogar aberto e à vista e mesmo que perdesse a partida, sempre haveria a possibilidade de uma revanche. Talvez esperasse demais de algumas pessoas e isso, por vezes, abalou algumas probabilidades. Não brinca de Deus, por isso não guarda rancores. Às vezes o céu parece tão perto das mãos que até esquece que na verdade as nuvens não são feitas de algodão. E quem se importa com isso? Só quer mesmo é poder rever aquele céu laranja que se forma na sua janela e sentir que os instantes cinza sempre cedem espaço para as cores vivas.

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