Manuela Alves

October 26, 2007

ANDANDO EM CÍRCULOS

Filed under: Contos — manuelalves @ 2:56 pm

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Eu grito por liberdade
Você deixa a porta se fechar
Eu quero saber a verdade
E você se preocupa em não se machucar

Eu corro todos os riscos
Você diz que não tem mais vontade
Eu me ofereço inteiro
E você se satisfaz com metade

A seta e o alvo (Paulinho Moska/ Nilo Romero)

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Respirou fundo para introduzir todo aquele aroma aos pulmões. E sentiu quase uma felicidade descabida para o momento. O sorriso veio quase que instantaneamente a sua face. Aquele cheiro, tão familiar, lhe trazia boas e más recordações. Já fazia bastante tempo, mas ela não esquecia e aquele cheiro reacendeu todo um turbilhão de sentimentos. As lembranças já não lhe machucavam tanto o peito, mas a saudade inundava toda a sua existência. Vez ou outra podia sentir aquele perfume impregnado em seu travesseiro ou no meio de suas roupas. Mesmo que estas vestes houvessem acabado de retornar na lavandaria. Por vezes aquela essência era tão presente que enganava-se, achando que talvez ele estivesse realmente ali. Ainda agora, varria cada mínimo compartimento daquele ambiente à procura dele. Não podia evitar, era o seu inconsciente trabalhando, e no fundo sempre restava a esperança de um reencontro ao acaso. Só que este dia nunca chegava. Já fazia anos e nunca mais soubera nem notícias dele. Ficara com as lembranças daquela despedida gélida. Guardava consigo o anel de um pedido irreal. O restinho do seu perfume ainda estava sob a penteadeira. As cartas continuavam meio amarrotadas no fundo do armário. A cama ainda não havia sido trocada. E o amor que sentia, não dava sinais de que fosse lhe abandonar tão cedo.

October 22, 2007

EDIFICANDO AS RUÍNAS

Filed under: Contos — manuelalves @ 11:16 pm

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“As vezes achamos que estamos fazendo bobagens. Mas estamos dizendo poesia”

Mário Quintana

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Fechou mais uma vez os olhos, tentando esquecer os últimos acontecimentos. Virava de um lado para outro na cama e não sentia nem um pouco de sono. As lembranças insistiam em invadir a sua mente, como num filme em que se volta constantemente uma determinada cena. Lembrava com tanta exatidão que já podia até escutar os sons e as palavras, exatamente como foram pronunciadas. Abriu os olhos e piscou repetidas vezes, como quem tenta espantar os pensamentos. Levantou-se, tomou um copo d’água na cozinha e pegou uma revista para se distrair. Mas entre uma linha e outra lembrava dos fatos. Já havia relevado muitas coisas e realmente tentava exercer a prática do perdão. O perdão só é completo quando totalmente esquecido. Quando não há mais cobranças. Quando não se utiliza mais como artifício de vingança. Relacionou bem os danos e propôs uma trégua, afinal havia muita coisa boa em jogo para ser desperdiçada com alguns pecados. O certo é que estes vacilos tornaram-se cada vez mais constantes e, por isso, precisou engolir muito sapo. Mas tudo tem limite e mesmo a mais pura e sábia das criaturas tem sangue correndo nas veias. Odiava cobranças e tomadas de satisfações. Cada pessoa sabe exatamente quando age de maneira errada e forçar um confronto não era a melhor solução. Não gritou, não brigou, não jogou na cara tudo o que sentia. Apenas lhe lançou um olhar de poucos amigos, deu as costas e seguiu o seu caminho. Percebeu que nem todos merecem o perdão e que também não gostaria de perdoar, mais uma vez, a quem não sabe o significado de tal gesto. O aprendizado se faz completo quando a parte interessada realmente deseja aprender, e fingir interesse já não funcionaria mais. Neste momento, só queria distância de tudo aquilo. Queria poder esquecer, passar uma borracha, arrancar a página, picar em pedacinhos bem pequenos, jogar no lixo e se possível tacar fogo em toda aquela história. Não era pessoa de arrepender-se de fatos passados, mas estava cansado e abrindo mão de tudo aquilo. Não sentia raiva ou aversão. Acreditava que havia feito a sua parte, só que estava com uma sensação que não gostava de sentir. Um gosto estranho na boca. Um aperto ruim no peito. Uma dor profunda na alma. Esse sentimento tinha nome, um nome que não gostava de pronunciar. O nome era fracasso.

October 10, 2007

A CORAGEM ESTÁ NO MEDO

Filed under: Contos — manuelalves @ 11:40 pm

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“Há aqueles que lutam um dia; e por isso são bons; Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons; Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda; Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são imprescindíveis.”  

Bertold Brecht 

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Os dias passam cada vez mais rápido e essa insônia não me abandona. Por problema de usuário mesmo, a minha mente não desliga nunca e até quando eu tento deitar um pouco, nos momentos que o corpo já pede cama, o descanso merecido não vem. Mas hoje o meu cansaço é diferente. É uma fadiga de dever cumprido e de verdades declaradas. Há tempos que eu estava com toda aquela angústia a me martelar a cabeça. Sem saber o que fazer, sem saber o que dizer. Eu sentia o seu medo e não podia te orientar. Eu sabia das suas dúvidas, mas não queria te aconselhar. Tudo o que eu pretendia fazer era observar. Não era uma regra, nem muito menos uma ordem. Não havia nenhum impedimento. Somente uma vontade enorme de me manter imparcial. Acontece que eu nunca fui muito boa de promessas ou regras e quando dei por mim, já estava te pegando pelo braço e falando tudo o que eu pensava. Eu realmente só queria que você entendesse que é normal sentir medo. Todo mundo sente. Só que nem todos confessam. Talvez por achar que o medo pode parecer sintoma de fraqueza. Eu sou uma eterna medrosa, mas me relaciono muito bem com os meus temores. Garanto que aquela máxima de enfrentar o que não te agrada funciona. Você nunca vai deixar de ter medo, é normal. Sentimento comum a quem é humano, e isso eu sei que você é. Só que terá que aprender a domá-lo. Mostrar que é mais forte do que qualquer obstáculo. Experimentar cair e saber que pode levantar. Dar um passo maior que a perna, perceber que foi demais, recuar e avançar novamente. Entender que nada dura para sempre e aproveitar cada mínimo detalhe. Abandonar esse medo de magoar alguém e acabar se magoando. Ser egoísta ao menos uma vez e pensar somente em você. Traçar metas, conquistar objetivos, seguir em direção ao nada para encontrar o seu tudo. Nadar contra a correnteza, tirar os sapatos e sentir os pés bem firmes no chão. Ser você e gostar do que vê. Falar apenas com quem te agrada. Sorrir somente se tiver vontade. Cantar as músicas que te satisfaçam. Presta atenção, o tempo está passando, já não dá para ser essa pessoa alheia aos fatos. Olha o relógio, abre o calendário e pensa em tudo o que eu te disse. Talvez tenha sido demais, talvez eu tenha pedido muito, mas ao menos tenta relacionar os itens mais importantes e experimenta errar. Eu não garanto que vou aparar a sua queda, mas estarei presente para ajudar a limpar as suas feridas.

October 9, 2007

PACIÊNCIA

Filed under: Contos — manuelalves @ 1:25 am

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[...] Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos- dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição para homem. Mulher é desdobrável. Eu sou. 

Adélia Prado – Com licença poética 

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Não, não é a vida que é complicada, somos nós que complicamos a vida. A sensação que eu tenho é que quando tudo parece estar perfeitamente certo, o mínimo erro se transforma no pior dos deslizes. Não sei bem o que acontece, mas às vezes me sinto só mesmo estando rodeada de pessoas. E não é qualquer pessoa. São amigos que gostam verdadeiramente de mim. Pelo que eu sou e do jeito que eu sou, com defeitos e qualidades, mais defeitos que qualidades, fazer o quê? Ninguém é perfeito, e eu estou longe disso. E nem mesmo tenho a pretensão de chegar lá. Prefiro continuar com os meus defeitos e também costumo aceitar os defeitos alheios. Não dá para mudar a essência de ninguém, porque estraga o perfume. O que acontece é que tem dias que sinto falta de algo que nem existe. Tenho saudades de alguém que eu ainda nem conheci. Sinto cheiros que não consigo identificar o que é e idealizo um futuro que eu nem sei ainda como devo construir. Sem rumo, idéia ou opção, sigo tentando acertar. Colocar as coisas em ordem, nortear a vida. Talvez por ser acostumada a cair nas histórias de pára-quedas, com roteiro e enredo já traçados é que tenha tanta dificuldade em consertar as coisas. E foi numa dessas quedas bruscas que me dei conta de como as coisas simples são melhores. A felicidade está nas pequenas coisas. Uma boa ação, um sorriso, um abraço, às vezes somente um olhar. É bom perceber estes pequenos gestos. Olhar a vida em câmera lenta, de que adianta tanta pressa? Acelerar os acontecimentos não adianta o relógio e muito menos faz ele parar. Tudo tem seu tempo. A vocês, que perguntaram porque eu estava demorando tanto para escrever novamente, eu respondo: - Pra que tanta pressa? Bom mesmo é pensar devagar e deixar os fatos acontecerem espontaneamente. Eu hoje estou em compasso de espera constante.

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