Manuela Alves

November 9, 2007

O RE-COMEÇO

Filed under: Contos — manuelalves @ 10:28 pm

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Se as coisas são inatingíveis…ora!

Não é motivo para não querê-las…

Que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas! 

Mário Quintana 

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Depois de tantas mentiras, ditas a si mesma, era chegada a hora de dar adeus. Já não adiantava tentar de todas as maneiras colorir uma vida tão preto e branca. Existem situações que apenas o amor, não basta. Naquele momento só isso era pouco pra ela, e já não estava tão certa quanto a intensidade do seu sentimento. Quem ama liberta, entende, escuta, ajuda, compartilha. Quem ama esquece, perdoa, se arrepende. Varria a memória e lembrou das poucas vezes em que foi feliz naquela relação. Mas isso não a deixava triste. Havia gostado tanto dele, e libertado tantos bons sentimentos que entendia a necessidade em passar por tudo aquilo, cresceu e absorveu experiências valiosas, que a tornaram uma outra pessoa, mas precisava ir em busca de mais conhecimentos. Por mais que ele lhe pedisse, dessa vez diria não. Por mais que sentisse uma vontade enorme de ficar, precisava ir embora. Gostava muito da sua companhia, mas precisava ficar só. Encontrar-se, reinventar-se e finalmente renascer. E não foi poupada, derramou muitas lágrimas para dizer adeus, sentiu vontade de desistir e fazer com que aquela dor parasse de apertar no peito. Vacilou em algumas palavras e evitou olhar em seus olhos. Seguiu em frente com o seu objetivo e antes de sair de vez daquela vida, olhou demoradamente para cada mínimo detalhe daquele lugar, lembrou de lágrimas e sorrisos e sentiu saudade daquilo que ela ainda nem havia abandonado por completo. Teve medo de cruzar a porta, pois sabia que era um caminho sem volta, olhou de relance nos olhos dele e obteve a última gota de coragem. Bateu a porta com força e a partir daquele instante recomeçou tudo do zero.

November 6, 2007

OS DIAS QUE VIRÃO

Filed under: Contos — manuelalves @ 6:44 pm

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É saudade, então

E mais uma vez

De você fiz o desenho

Mais perfeito que se fez.

Os traços copiei

Do que não aconteceu

As cores escolhi

Dentre as tintas que inventei.

Acrylic on canvas – Legião Urbana

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Olhava pela janela e a paisagem era diferente daquela a que estava acostumada a olhar. Nas ruas havia menos verde e nenhuma gota d’água passava por debaixo das pontes. Tudo o que via eram construções, prédios enormes, muitos carros na rua. Poeira, fumaça e gente andando apressada. Após todos esses anos ainda não havia se acostumado aquela visão. Era como se fosse uma nova paisagem todos os dias. Guardava na memória as boas recordações, dos rios e pontes de sua terra. Lembrava do mar. Um mar verde-esmeralda que só de olhar dava vontade de mergulhar. Aquele sol de rachar que a acordava todas as manhãs deixara tantas saudades. Aquele clima gelado dava preguiça e roubava toda a sua disposição ultimamente. Sabia dos motivos que um dia a levaram aquele lugar e não sentia raiva. Compreendia que a vida passa por ciclos, muitas vezes inevitáveis e gostava de imaginar que um dia tudo voltaria a ser como antes. Agora a decisão competia somente a ela e estava muito disposta a correr atrás dos prejuízos. A pintura que observava da janela quase lhe gritava que tudo era passageiro, porque se pararmos para observar um mesmo local, todos os dias, ele nunca estará igual ao dia anterior. Algumas folhas caem, as ruas podem ter mais ou menos pessoas, podem estar limpas ou sujas e até mesmo uma flor pode nascer por entre pedras de concreto. Talvez isso a mantivesse esperançosa. Amanhã, a paisagem em sua janela, talvez fosse outra.

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