Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Drummond – Receita de Ano Novo
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Essa coisa toda que nos invade no final do ano é bem complicada. É um sentimento que, querendo ou não, você acaba fazendo uma retrospectiva dos últimos doze meses. E posso dizer que a alguns anos atrás essa retrospectiva não era tão perturbadora. Os compromissos assumidos e as histórias vividas eram bem mais leves. Tudo parecia tão cor-de-rosa quanto um algodão doce, que derrete na boca e nos deixa apenas uma sensação doce na língua. Quanto mais experiência adquirida, mais amargo é o gosto que nos resta. Ano passado foi o meu ano do TUDO. Foi como se eu tivesse aprendido dez anos em doze meses. Este ano foi o meu ano do QUASE. Olhando para trás eu percebo que quase fui má. Quase fui egoísta. Quase fui intolerante. Quase fui infeliz. Quase fui desespero. Quase fui euforia. Quase fui loucura. Em um desses meus muitos QUASE, eu quase te perdi. E digo quase porque você nunca me pertenceu, e como perder algo que nunca foi meu? Perceber com tamanha nitidez esse fato foi algo muito importante, porque assim pude optar por todos os meus outros QUASE. Porquê ser egoísta se posso ser altruísta? Porquê ser má se posso fazer o bem? Porquê ser intolerante quando posso ser indulgente? Como optar pela infelicidade se quero ser feliz? Acredito que no limite da loucura é que nos tornamos mais sãos. É como precisarmos do próprio veneno para nos curar da picada de um bicho peçonhento, assim também precisamos experimentar o inferno para alcançarmos o céu. Baseado no fato de que todos nós temos o livre arbítrio para escolhermos o caminho a seguir, cabe a cada um trilhar o que melhor lhe provém. E este ano eu bem poderia ter escolhido o inferno, mas por quê? Se eu me adapto tão bem ao céu.

