Manuela Alves

December 8, 2007

QUASE

Filed under: Contos — manuelalves @ 3:59 pm

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Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre. 

Drummond – Receita de Ano Novo

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Essa coisa toda que nos invade no final do ano é bem complicada. É um sentimento que, querendo ou não, você acaba fazendo uma retrospectiva dos últimos doze meses. E posso dizer que a alguns anos atrás essa retrospectiva não era tão perturbadora. Os compromissos assumidos e as histórias vividas eram bem mais leves. Tudo parecia tão cor-de-rosa quanto um algodão doce, que derrete na boca e nos deixa apenas uma sensação doce na língua. Quanto mais experiência adquirida, mais amargo é o gosto que nos resta. Ano passado foi o meu ano do TUDO. Foi como se eu tivesse aprendido dez anos em doze meses. Este ano foi o meu ano do QUASE. Olhando para trás eu percebo que quase fui má. Quase fui egoísta. Quase fui intolerante. Quase fui infeliz. Quase fui desespero. Quase fui euforia. Quase fui loucura. Em um desses meus muitos QUASE, eu quase te perdi. E digo quase porque você nunca me pertenceu, e como perder algo que nunca foi meu? Perceber com tamanha nitidez esse fato foi algo muito importante, porque assim pude optar por todos os meus outros QUASE.  Porquê ser egoísta se posso ser altruísta? Porquê ser má se posso fazer o bem? Porquê ser intolerante quando posso ser indulgente? Como optar pela infelicidade se quero ser feliz? Acredito que no limite da loucura é que nos tornamos mais sãos. É como precisarmos do próprio veneno para nos curar da picada de um bicho peçonhento, assim também precisamos experimentar o inferno para alcançarmos o céu. Baseado no fato de que todos nós temos o livre arbítrio para escolhermos o caminho a seguir, cabe a cada um trilhar o que melhor lhe provém. E este ano eu bem poderia ter escolhido o inferno, mas por quê? Se eu me adapto tão bem ao céu.

December 3, 2007

UMA SEGUNDA CHANCE

Filed under: Contos — manuelalves @ 9:53 pm

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Não somos mais que uma gota de luz. Uma estrela que cai. Uma fagulha tão só na idade do céu. Não somos o que queríamos ser. Somos um breve pulsar. Em um silêncio antigo com a idade do céu. Calma, tudo está em calma. Deixe que o beijo dure. Deixe que o tempo cure.

A idade do céu – Paulinho Moska 

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Não sabia ao certo o que estava sentindo ou fazendo, sua única certeza era que precisava seguir em frente. Sabia-se egoísta naquele momento porque pensava só nela e lembrava apenas daquela angústia que insistia em lhe atormentar o corpo e a alma. Não queria sofrer e acreditou que sozinha ia dar conta daquele sentimento. Queria saber como terminar com tudo aquilo, dar um basta. Colocar, enfim, um ponto final na história. E quanto mais se aproximava de si mesma, mais se afastava dos amigos, da família e de todos que gostava. Ninguém se deu conta e aqueles que perceberam, estavam ocupados demais para se preocupar com os problemas alheios. É sempre assim, achamos que os nossos problemas são sempre maiores. Cobramos atenção, mas não temos um mínimo de compaixão quando precisamos retribuir atenção. O interessante é que a pessoa que realmente precisa de ajuda, não pede socorro e, por isso, não deu para escutar quando os seus olhos pediram proteção. Precisava se dar conta de que merecia muito mais do que submeter-se em um dia comum a virar notícia nas páginas do jornal. Devia isso a quem amava. Devia isso a sua família. Entre a coragem e a covardia estava agora vivendo em uma corda bamba, disposta em um terreno íngreme. Conseguira chamar atenção para si e agora todos buscavam manter as suas horas ocupadas, a sua mente atuante e os seus dias tranqüilos. E nessa retrospectiva da vida é fácil perceber o limite entre o bem e o mal e a inconstância das coisas. Como o tempo passa rápido e como cada momento é único. Hoje, eu não posso mudar o meu passado, não posso desfazer o que já foi feito e nem contradizer o que foi dito. Não dá para plantar sorrisos em rostos que finquei lágrimas. Mas posso rever os meus esforços e trabalhar para cultivar alegria e só proferir palavras doces. Não adianta quebrar a cabeça com problemas passados, o importante agora é avistar o futuro e mesmo que o horizonte se mostre bastante distante, ter a certeza de que é possível chegar lá.

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