Manuela Alves

January 10, 2008

CHEGA DE MENTIRAS

Filed under: Contos — manuelalves @ 11:39 pm

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Quem te disse que era hora de partir? Hora boa é sempre hora de voltar. De partir é sempre hora, vem pra cá.Já perdi noção da hora de esperar. 

Levou meu coração

E botou dentro da mala

Pesou na sua mão

E sobrou na sua sala. 

Já perdi toda alegria. E perdi noção da hora. Você disse que viria. E eu digo, que demora! 

Boa hora – Fino Coletivo 

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Percebo então que a seu respeito eu sei bem pouca coisa, quase nada. E ainda assim sinto como se te conhecesse há séculos. Cada vez que te olho a impressão que sinto é de familiaridade. A maneira de olhar. O seu sorriso contido, quase tímido e tão desprovido de inocência. O timbre da sua voz é cada vez mais íntimo. Por vezes acho que talvez já tenhamos nos esbarrado pela vida, mas depois vem a certeza de que lembraria se isso houvesse acontecido. Porque você é marcante demais e mesmo que ainda não tenha se dado conta, já deixou mais do que devia de si em mim. Também fico eu com a certeza de que deixei mais do que devia de mim em você. Por isso, quando me olha, eu sei exatamente o que você está pensando. Quando está quieto, sei o motivo pelo qual você está triste. Quando me abraça me embriago dos seus sentimentos num misto de troca de perfumes e pesos na consciência. Por isso cobro tanto de você. Pouco é nada, em comparação ao que você é capaz de expressar. Preciso de partes inteiras e não meias verdades. Quero que possa gritar e um sussurro só torna as coisas mais difíceis. Prefiro quem olha no olho e estas mensagens já não têm mais nenhum sentido. Eu quero o aqui e agora, surpresas, acasos. Quero o inesperado, palpável, real, visível e somente aquilo que é totalmente possível.  

January 6, 2008

O BARULHO DO SILÊNCIO

Filed under: Contos — manuelalves @ 5:18 pm

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 ” Criamos a época da velocidade,
mas nos sentimos enclausurados dentro dela.
Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos;
nossa inteligência, empedernidos e cruéis.
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.”

Charles Chaplin
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Ao despertar na madrugada de mais uma noite insone, tanta coisa me passa pela cabeça. Olho a escuridão do quarto e saio tateando o chão, em busca do controle da televisão, para mais uma vez perceber que nada do que está passando me agrada. Hoje me contentei em observar o silêncio dos quarteirões que cercam o prédio onde moro. Nos prédios vizinhos, nenhuma luz acesa. Ninguém andando pelas ruas. Apenas um carro circula lá adiante. O calor do quarto é insuportável, mas quando abro a janela um vento frio desperta o ambiente. No céu, eu já consigo ver os primeiros raios de sol. A luz apagando as estrelas e pintando em tons de laranja e amarelo a escuridão da noite. Alguns passarinhos estão a cantar e eu escuto o barulho de algum portão abrindo. Tento fechar os olhos para ver se o sono vem, mas a minha mente trabalha a mil por hora. Lembro de tudo o que tenho para fazer e também o que tenho ou não vontade de fazer. Olho para os livros na estante, mas não desperto interesse em continuar a leitura de nenhum deles. Me concentro no som do tic-tac do meu relógio e fecho a cortina para escurecer o quarto, que a esta altura já está completamente claro pela luz do sol. E num piscar de olhos já se passaram 2 horas e é hora de começar o dia todo de novo. Antes, olho pela janela e há tantas pessoas na rua que nem parece aquele bairro que irritava pelo silêncio de momentos atrás. Eu olho o mar em busca do barulho das águas, a inquietação das ondas me faz bem. Eu olho a rua, em busca da pressa constante que as pessoas têm em correr contra o tempo. Eu olho as pessoas procurando aquela inquietação nos olhos e a constante vontade de ultrapassar barreiras. O que tira o meu sono é este silêncio insuportável que o escuro da noite trás, todos os dias, para dentro do meu quarto.

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