Manuela Alves

February 28, 2008

DO SABOR QUE ELA NÃO CONHECE

Filed under: Contos — manuelalves @ 1:58 am

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 Esse texto é de uma amiga querida e talentosa que vara as madrugadas largando palavras no papel e que ainda não se deu conta de que é um talento.

[Texto by Tatiana Leonel].

Não sei exatamente quando ela cravou no peito a palavra dúvida. Mas foi nesse momento que encontrou a suavidade da sua imperfeição. Achando tão comum tropeçar em seus erros e fazendo deles uma ponte entre o que é, e o que será um dia. Foi assim que mais uma vez, preenchida de uma emoção súbita e um teor etílico mínimo, mas já suficiente para transformá-la em pura coragem e desejo. Se pôs a escrever para ele, como se o conhecesse há muito.Tudo bem, há tempos não se vêem e tiveram um história brevíssima, interrompida pelo desejo recíproco de um verão sem fim em praias diferentes. Mas o verão acabou. E a curiosidade toma conta daquela alma de menina querendo explorar o mundo, e todas as novidades que ele a presenteia. Neste exato segundo queria mesmo é banhar de cores essa nova vida, e a primeira cor que escolheu fora o verde escuro de seus olhos. Que encheram de graça aquela noite de domingo. Ele foi muito gentil, e ainda devolveu a ela (talvez sem notar) a leveza de um beijo, despretensioso e cheio de calor, daqueles que fazem o coração disparar sem o nosso consentimento. E foi assim que ela se colocou a escrever palavras indefinidas mais cheias de razão. Razão de querer viver uma coisa nova, uma vida diferente. Impregnada de um desejo curioso de saber realmente quem ele é. Qual seu sabor, seu cheiro, suas palavras…queria dele os cinco sentidos. Tinha tudo em seu peito, uma bagunça. A única coisa que já não tinha era aquele medo impertinente de arriscar. Esse ficara no passado, em pequenas porções de dor e saudades. E que se lembrava raramente, para poupar seu coração do que já não valia mais a pena. Só sei que entre tantas pessoas que andou conhecendo, este lhe tocara de forma especial, principalmente porque a única coisa que os prendiam era a liberdade. Ela adora brincar com as palavras, e noite dessas não conseguiu esconder suas frases roubadas de uma repentina vontade dele. Não se conteve guardando o que sente embaixo do travesseiro, como de costume. Enviou-lhe frases soltas e embriagadas. E acordou numa ressaca moral sem fim. Ele nem sabe quem ela é direito. Sabe agora apenas, que existe nela um desejo sincero de voltar a vê-lo. E que suas palavras fogem em sua direção na madrugada, quando a ausência de sono lhe consome e deixa cair diante das palavras sua essência de pessoa tímida. Desabrocha feito flor, mesmo sabendo que na manhã seguinte um sorriso sem graça vai tomar conta do seu rosto encabulado. E que não terá coragem de verbalizar a metade do que é de verdade, quando finalmente mergulhar mais uma vez dentro dos olhos dele.

February 8, 2008

ABANDONO

Filed under: Contos — manuelalves @ 11:12 pm

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“E se ao menos eu virasse as costas para o que me incomoda? Adiantaria alguma coisa? Resolveria o impasse de uma existência a se perguntar em seqüência ascendente? Não. Pura ilusão pensar que a memória falha. O meu problema não é de memória; é de esquecimento – de abandonar o passado para deslembrar os episódios que me machucaram e me fizeram menos afoita”.

Fátima Quintas

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E mais uma vez, você vem com essa conversa e estraga tudo. Porque não entende que o que me pede eu não posso te dar? Talvez você nem ao menos tenha se dado conta do que pede. Vive alardeando que seria muito fácil. Me transforma na personagem má da história. Mas que história? Isso está parecendo mais um conto de fadas, e o pior, sem nenhuma perspectiva de um final feliz. Como pode cobrar algo que nunca me deu? Como achar que é normal uma situação que só trás inquietude e desconfianças? Talvez se você puder me explicar o que devo fazer com todo esse tempo livre que gasto pensando em você, eu possa tentar ignorar os fatos. Me explica como posso perder tanto tempo em algo que está fadado ao fracasso. Me diz como faço para não te ligar. Me conta o que tenho que fazer para receber ao menos cinquenta porcento daquilo que te dou. Não é muito, é apenas a metade. Me mostra como faço para aceitar migalhas. Me ensina a querer pouco, quando quero ter muito. Me aceita do jeito que eu sou porque pra mim, você é perfeito da maneira que está. Não me engana com palavras e me traia com ações. Não fuja do meu olhar ao dizer aquilo o que eu gostaria de ouvir e não o que deveria me dizer. Nunca use um vocabulário que não é o seu ao tentar me enganar e pára de me observar pelo canto do olho, como se eu não percebesse que está me vigiando. Gostaria que você entendesse somente uma coisa. É impossível complicar uma situação que já nasceu complicada. E não adianta tentar me manipular porque eu sempre sei exatamente onde você está querendo chegar. É bem verdade que em alguns momentos, mesmo entendendo a sua infantilidade, você me magoa, mas acredite, o meu orgulho é bem maior do que qualquer tipo de provocação sua, portanto você nunca vai saber se estou chateada. E talvez seja justamente por conta desse orgulho que te digo para não insistir. O vaso quebrou e dizem por aí que vaso colado não trás sorte. O que posso fazer? Sou superticiosa por natureza. Mas fico torcendo para que você se encontre em alguém menos crédula.

February 7, 2008

CAMINHO CERTO?

Filed under: Contos — manuelalves @ 1:27 am

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“Cada vez mais acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor.” 

Clarice Lispector – Escrevendo. 

Depois de tanto tempo estava com aquela sensação de não saber de onde veio ou para onde vai. Meio perdida no tempo e no espaço. Havia experimentado tantas sensações que já nem sabia se aquela era boa ou ruim. Tinha um misto de perda, saudade e alívio. Talvez por isso insistia em manter distância das pessoas. Somente porque gente significava responsabilidades, sentimentos, sofrimentos, dúvidas, respeito e acima de tudo doação. Já não possuía tanta convicção sobre os fatos. Por um tempo tudo parecia tão perfeito e em sintonia que foi como se o dia de amanhã não fosse chegar nunca. Acontece que o relógio não quebrou ou ficou com a pilha fraca. E tudo passou depressa demais. As certezas tornaram-se dúvidas e tudo foi voltando, aos poucos, ao seu devido lugar. Talvez aquela pose toda fosse proposital e a segurança nada mais era do que a insegurança escondida num fio de orgulho. Naquele momento sabia o que queria, só não conseguia discernir o motivo para chegar até o objetivo. Quando o caminho é curto e as opções são poucas, é fácil nomear os sentimentos, e no momento eram apenas dois. Sofrimento ou amor. E mesmo sabendo que um é dependente do outro, sentia que era necessário separar as coisas e optar por um caminho só. E como a vida não é um filme, com direito a final feliz, nem sempre escolhemos o caminho certo. E como somos humanos aprendemos com os erros e continuamos sempre errando. Essa é a mágica da vida, se as coisas fossem fáceis não seria tão preciosa a escalada.

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