Esse texto é de uma amiga querida e talentosa que vara as madrugadas largando palavras no papel e que ainda não se deu conta de que é um talento.
[Texto by Tatiana Leonel].
Não sei exatamente quando ela cravou no peito a palavra dúvida. Mas foi nesse momento que encontrou a suavidade da sua imperfeição. Achando tão comum tropeçar em seus erros e fazendo deles uma ponte entre o que é, e o que será um dia. Foi assim que mais uma vez, preenchida de uma emoção súbita e um teor etílico mínimo, mas já suficiente para transformá-la em pura coragem e desejo. Se pôs a escrever para ele, como se o conhecesse há muito.Tudo bem, há tempos não se vêem e tiveram um história brevíssima, interrompida pelo desejo recíproco de um verão sem fim em praias diferentes. Mas o verão acabou. E a curiosidade toma conta daquela alma de menina querendo explorar o mundo, e todas as novidades que ele a presenteia. Neste exato segundo queria mesmo é banhar de cores essa nova vida, e a primeira cor que escolheu fora o verde escuro de seus olhos. Que encheram de graça aquela noite de domingo. Ele foi muito gentil, e ainda devolveu a ela (talvez sem notar) a leveza de um beijo, despretensioso e cheio de calor, daqueles que fazem o coração disparar sem o nosso consentimento. E foi assim que ela se colocou a escrever palavras indefinidas mais cheias de razão. Razão de querer viver uma coisa nova, uma vida diferente. Impregnada de um desejo curioso de saber realmente quem ele é. Qual seu sabor, seu cheiro, suas palavras…queria dele os cinco sentidos. Tinha tudo em seu peito, uma bagunça. A única coisa que já não tinha era aquele medo impertinente de arriscar. Esse ficara no passado, em pequenas porções de dor e saudades. E que se lembrava raramente, para poupar seu coração do que já não valia mais a pena. Só sei que entre tantas pessoas que andou conhecendo, este lhe tocara de forma especial, principalmente porque a única coisa que os prendiam era a liberdade. Ela adora brincar com as palavras, e noite dessas não conseguiu esconder suas frases roubadas de uma repentina vontade dele. Não se conteve guardando o que sente embaixo do travesseiro, como de costume. Enviou-lhe frases soltas e embriagadas. E acordou numa ressaca moral sem fim. Ele nem sabe quem ela é direito. Sabe agora apenas, que existe nela um desejo sincero de voltar a vê-lo. E que suas palavras fogem em sua direção na madrugada, quando a ausência de sono lhe consome e deixa cair diante das palavras sua essência de pessoa tímida. Desabrocha feito flor, mesmo sabendo que na manhã seguinte um sorriso sem graça vai tomar conta do seu rosto encabulado. E que não terá coragem de verbalizar a metade do que é de verdade, quando finalmente mergulhar mais uma vez dentro dos olhos dele.


