Manuela Alves

March 24, 2008

THE END?

Filed under: Contos — manuelalves @ 12:43 am

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Foto: Scott Ableman

Entre muitas outras coisas, tu eras para mim uma janela através da qual podia ver as ruas. Sozinho não o podia fazer. 

Franz Kafka 

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Depois de haver passado tantos dias fora. Meio que para tentar esquecer os problemas. Meio que para tentar interpretar uma vida que na verdade nem existe. Volto a este local que depois de quase um ano ainda parece tão vazio. É como se ninguém tivesse habitado aqui esses meses todos. Como se não houvesse vida no ambiente. As paredes ainda estão vazias. Nem sinal de quadros ou pinturas. Tudo é branco e impessoal. A sala ainda não tem nenhum móvel. Não dá para sentar. Receber alguém, nem pensar. E lembro das tantas vezes em que senti vontade de ligar para os amigos e sugerir uma visita. Vontade que passava assim que lembrava daquela sala tão fria e impessoal. A verdade é que pouco conseguia viver com aquele grito de silêncio que ecoava por todos os cômodos do local. Cada mínimo espaço recebia uma quantidade de luz capaz de iluminar o mais triste dos ambientes, mas incapaz de iluminar a mais tristes das solidões. Passava os dias envolta em problemas alheios, em risadas constantes e em dasafios surpreendentes e tão necessários. Mas tudo virava pó e lembrança ao girar da maçaneta e abrir da porta de entrada de casa. Faltava voz. Conversa, diálogo e problemas. Faltava olhares e discussões. Tudo que sentia-se era silêncio e conversas toscas e pouco pessoais através de um computador que só deixava as coisas mais distantes. A verdade é que às vezes sentimos a necessidade de gritar e algo nos corta a voz. Precisamos constantemente mostrar a nossa coragem quando o nosso temor teima em nos saltar aos olhos. Eu só quero poder ser eu mesma. Dizer que sou humana e que erro constantemente. Mostrar que me afasto das pessoas por medo de magoar e de ser magoada. Escutar conselhos de que é preciso errar para poder acertar. Seguir em frente sem medo do invisível. Perdoar aquele que errou tanto ou mais do que eu e saber que nada é para sempre e que a vida é difícil para todos. No final, fica apenas o aprendizado e a história de quem teve a coragem de seguir em frente.

March 7, 2008

ABRINDO JANELAS

Filed under: Contos — manuelalves @ 3:40 am

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De quem é esta saudade que meus silêncios invade, que de tão longe me vem? De quem é esta saudade, de quem? Aquelas mãos só carícias, Aqueles olhos de apelo, aqueles lábios-desejo… E estes dedos engelhados, e este olhar de vã procura, e esta boca sem um beijo… De quem é esta saudade que sinto quando me vejo? 

Gilka Machado – Saudade – (in Velha poesia, 1965) 

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Rodou a chave e girou a maçaneta da porta, tudo o que viu foram aquelas paredes brancas e a sala vazia. Andou vagarosamente até a janela e olhou para baixo por entre o vidro, tudo que viu foi o movimento de carros na rua e uma luz fraca que teimava em penetrar pela janela. Luz do sol dizendo adeus ao dia. Fraquinha, laranja e que tinge o céu de um colorido que nenhuma aquarela é capaz de reproduzir com tamanha perfeição. Quis sentir o vento batendo no rosto e num movimento rápido abriu toda a janela, até onde a esquadria permitia. Num segundo um número sem fim de cartas e contas começaram a voar por entre os cômodos. Correspondências há muito deixadas por debaixo da porta. Caminhou vagarosamente por entre as portas fechadas e foi abrindo uma a uma, como num ritual de purificação. Como que para limpar a escuridão com raios de luz. Mais uma vez reparou nas paredes vazias e nas marcas que os quadros haviam deixado. O colorido abrira espaço para o branco e isso incomodava a sua vista. Não conseguia distinguir ao certo se estava triste ou feliz. Sabia-se apenas só. E naquele momento a solidão lhe doía, em pequenas doses de desespero e medo. Vislumbrava com esperança o futuro e queria esquecer um pouco o passado. Talvez para aliviar todo aquele tormento, mas o presente ainda estava bem vivo na memória e nem os pequenos sonhos puderam evitar que lágrimas rolassem por sua face. Deixou cair todas para tentar jogar fora aquele sentimento ruim que estava dentro do peito. Depois, um pouco mais tranqüila, passou a mão no rosto, limpou aquela maquiagem borrada, olhou-se no espelho e disse a si mesma que agora seria um novo começo e que havendo deixado tudo para trás o caminho seria sem volta. Não se permitiria retroceder, a linha do horizonte seria seu guia. Abraçou a solidão daquela casa vazia e tomou como princípio de vida o pôr do sol que mesmo trazendo o escuro da noite consegue impressionar e multicolorir todos os dias. 

March 5, 2008

MEDO DA VERDADE

Filed under: Contos — manuelalves @ 12:06 am

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Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano- já me aconteceu antes.  Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade- essa clareza de realidade é um risco. 

Clarice Lispector – A lucidez perigosa

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Acreditava tanto em tudo o que inventava que por vezes sentia como se tudo fosse um terrível pesadelo. Há tempos que a história dos dois não estava bem. A desconfiança, a traição e a perspectiva de ser passada para trás lhe atormentavam a mente. Tinha medo, mas queria provar que era forte. Não chegou a colocar um basta em tudo, porque era dependente demais dele. E ele ainda não entendia, mas estava acostumado demais a ela. Remexeu fatos e fantasias e levava consigo um peso no peito e a certeza insana de que estava sendo traída. Tinha medo das conversas sérias. Sentia-se incomodada com conselhos terceirizados. Sentia necessidade de desabafar toda aquela angústia, mas não sabia com quem. Não que tivesse amigos pouco confiáveis, mas por medo de ser julgada. Não queria abrir os olhos e corria os dias como uma míope. Fugia de encontros com pessoas que tentassem lhe mostrar a verdade. Aos poucos tornou-se egoísta, evitava qualquer tipo de contato com a realidade e temia que ele também sentisse um resquício sequer de verdade. Mesmo desconfiando até da sua sombra, decidiu seguir em frente ao invés de colocar tudo em pratos limpos e por isso tornou-se esquizofrênica. Evitou digladiar-se com o medo e acabou na solidão. A solidão dos fracos. A solidão dos derrotados. A solidão dos que preferem sofrer na dúvida a viver na tranqüilidade da verdade. Nenhuma sinceridade lhe interessa mais. A ela só resta a fantasia de um mundo que talvez nem exista. E a constância dos sonhos de que o seu mundo cor-de-rosa dure para sempre. Mesmo que o sempre acabe depois amanhã.    

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