Manuela Alves

April 13, 2008

PARA SER FELIZ

Filed under: Contos — manuelalves @ 10:31 pm

Foto: André Rohde

 

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

 

Fernando Pessoa

 

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Desculpa, mas o mundo não gira em torno de você. E nem mesmo sei porquê não acabo, de uma vez por todas, com esta minha mania em estar sempre te pedindo desculpas. Acabo tentando me moldar, criando padrões e conceitos que não dizem nada de mim. Quero poder ser eu mesma, rir meu riso insano e sentar com meus bons amigos num boteco ali da esquina simplesmente para jogar conversa fora. Ter certeza de que ainda estou viva. Exterminar pensamentos enfadonhos de mais uma semana tosca de trabalho. Chega de problemas, a cura de tudo está aí, dentro de você. Não adianta de nada tentar me convencer que o céu não é cor-de-rosa e que a vida não é feita de sonhos. Hoje você não me tira mais o sono. Essa conversa toda de página virada é balela. Eu não virei página nenhuma, apenas parei de ler. Encostei certos livros no canto da estante e me disciplinei a ler apenas as comédias. Rindo ou chorando o final de todos nós será sempre o mesmo. Já não sigo conselhos ou respeito os mais velhos. Esperança? É sempre a minha meta. Lembranças? Deixo no passado. Futuro? A Deus pertence. O hoje não tem nome de presente por um acaso e ainda bem que me dei conta disso. Eu tenho ânsia por enxergar além do horizonte. Quero conhecer o desconhecido e sentir prazer ao oscilar entre o certo e o errado. Quero mais que esta vidinha pacata e semi-feliz. Quero felicidade completa. Felicidade urgente.

 

April 5, 2008

DE VOLTA AO INÍCIO

Filed under: Contos — manuelalves @ 6:14 pm

Foto: Calvi

“A vontade é impotente perante o que está para trás dela. Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade”.

 

Nietzsche

 

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Escondido atrás de um relacionamento estranho, achava-se seguro. Guardava a mais fiel das certezas de que o tempo consertaria as coisas e deixaria tudo em seu devido lugar. Lutava contra seus próprios sentimentos e pelejava com a sua mente pra lá de aberta. Invariavelmente era bem convincente, tanto que achava enganar a si mesmo. Fabricava amor. Amor na medida exata para doar e receber. Desenhava sorrisos. Sorrisos tão bem alinhados que enganavam o olhar e impossibilitavam observarmos as lágrimas contidas. Era carente e interpretava um papel que, definitivamente, não era dele. Falava verdades em tom de brincadeira e as risadas mascaravam a verdade dita. Agora, cansou de brincar de esconde-esconde e caça-palavras. Se expôs, despiu-se do medo e falou com clareza, mas sinceridade demais assusta. Aquele ponto de interrogação sempre fez toda a diferença e agora nada mais seria como antes.

 

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