Manuela Alves

June 28, 2008

NÃO É MEDO…SOU APENAS AQUELA QUE VOCÊ NUNCA SONHOU

Filed under: Contos — manuelalves @ 1:11 pm

“É preciso ter caos e frenesi dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.”

Nietzsche

Antes descrever-me era fácil, bastava contar das emoções que vivi, das pessoas que conheci e dos amores que perdi. Daria para minimizar tudo em uma frase e caberia tudo ali, da primeira letra até o ponto final. Dispensava manifestações ou grandes pronunciamentos, o pouco englobava tudo. Hoje sou uma constante reticência e não adianta insistir para explicar aquilo que nem eu sei ao certo descrever. Já nem sei dizer se sou parte dos fatos ou se os fatos é que fazem parte de mim. Diria que sou um complexo conflito de interesses em uma invariável busca por algo que ainda nem existe. Então, não me diga apenas que eu mudei. Me explique em que ponto tudo começou a desandar. Mostre-me os erros que eu cometi e me diga como fazer diferente. Mas não me aponte os erros sem entender os motivos, descubra porque foram cometidos e qual a sua parcela de culpa em tudo isso. Quando você conseguir apurar as respostas para as suas perguntas, terá conseguido responder todos os meus questionamentos. E verá que eu não mudei apenas, mas que cresci. Nos bons e nos maus momentos, apenas cresci. Ainda continuo sim sendo aquela pessoa de sorriso fácil e olhar encantador que você tantas vezes descreveu. Ainda gosto de sorvete de baunilha e castanha caramelada. Aquele vício de dormir de meias ainda é incessante. Os milhares de livros continuam na minha estante e o hábito de escrever nunca me abandonou. Eu bem sei o que você anda dizendo por aí e só queria que entendesse que a minha estrada já não é mais perpendicular a sua e agora eu busco por outros limites, outros horizontes. Não apaguei simplesmente tudo o que eu fui, mas estou reconstituindo as minhas dores.

June 16, 2008

AMOR E LOUCURA

Filed under: Contos — manuelalves @ 8:49 pm

Foto: chicago kristi

“Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia”.

 

Nietzsche

 

*******************

 

Lembrava-se ainda das poucas vezes que lhe haviam pedido uma opinião sobre o assunto. Aquele que ninguém admite e que costuma não calar. Que não precisa pronunciar palavra pois que já está estampado nos olhos brilhantes de quem sente. Não que houvesse deixado de acreditar em amor e todos os outros tantos sentimentos que o cercam. Mas ultimamente estava com o pé atrás. Não gostava de opinar sobre os sentimentos alheios, mas aquela era uma situação interessante. Talvez ela nem soubesse que estava tão envolvida, ou simplesmente gostasse de acreditar que era tudo uma grande fantasia. Vivia um misto de encantamento e paixonite aguda que era difícil de identificar. Não conseguia compreender como uma pessoa tão pé no chão estava teimando em caminhar nas nuvens. Mostrava-se insegura e ao mesmo tempo ansiosa. Tinha medo e um desejo mais que urgente de se jogar naquela relação desconhecida. Agente costuma se entregar aquela pessoa que nos faz sentir bem. E definitivamente era o caso. Claro que a pitada de mistério e a ânsia de se conhecer através dos olhos dos outros lhe atraíam, mas tudo se juntava num grande e cobiçado relacionamento perfeito. Buscava tanto um sentimento que nem ela mesma sabia do que se tratava e em muitas vezes despertou interesses. Ficara satisfeita com alguns. Fugia desesperadamente de outros. Não se contentava com pouco, mas estava sempre em busca de algo que não era real. Parecia querer fugir um pouco da realidade. Coisas de quem vive de relacionamentos longos. Aquela eterna dependência de ter alguém sempre por perto. Ouvir palavras doces. Esquentar os pés nos dias chuvosos. A busca incessante pelo cara perfeito. Estava jogando e tentando acertar. Se ele é o tal cara perfeito? Só o tempo. Só o tempo.

June 5, 2008

DESCOBRIR-SE

Filed under: Contos — manuelalves @ 7:48 pm

É preciso a saudade para eu sentir

como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…

 

Mário Quintana

 

***************************

 

Andava esses dias tão na defensiva e distante que ninguém deu a mínima importância para saber se precisava de alguma ajuda. Talvez uma conversa boba ou um ombro amigo. Era daquelas pessoas reservadas por natureza e talvez por isso não fosse uma constante se fazer notar. Alguém bonito e de pensamentos fortes e muitas vezes incompatíveis com os dos outros. Andara fazendo novos amigos e junto com rumos e ocupações que a vida encarrega de diversificar na trajetória de cada um de nós, se afastou cada vez mais dos velhos amigos. O passar dos anos cuidou de concretizar a pessoa distante que se tornou. Mas nem isso impediu que vez ou outra surgissem comentários e suposições a respeito da vida que estava levando agora e o que mais intrigava era a escolha do silêncio quando uma conversa poderia ser tão bem recebida. O fato é que ninguém forçou para que esta conversa acontecesse e tudo ficou meio que implícito na boca, nos olhos e nos ouvidos de todos. Como se nada precisasse ser realmente dito, palavra por palavra, frase por frase. O silêncio gritava mil verdades. O que me intriga é esta falta de cumplicidade que aprisiona e desrespeita sua própria consciência. Por mais que diga querer que o resto do mundo exploda, não passa de teatro e frases soltas, ditas somente da boca para fora. Ninguém vive bem em culpa. A consciência pesa e condena constantemente. Somos incapazes de nos enganar a nós mesmos e este é um dos piores julgamentos a qual estamos sempre sendo condenados. Portanto, liberte-se. Converse. Peça conselho. Desabafe. Esteja pronto para ser você e abandonar essas personagens pouco convencionais que já se acostumou a representar. Abra a cela em que insiste em se manter aprisionado. A chave está aí, bem dentro de você. Pode sair dessa corredor escuro, o dia está tão bonito aqui fora. Céu azul, núvens brancas, vento forte que nos surpreende ao tocar a pele. Deixe-se levar, ao menos dessa vez confie em você. Dê as mãos à sua imaginação. Escreva como quem pinta. Fale como quem canta e ame como quem sorri o mais puro e sincero dos risos. Seja apenas feliz.

 

 

Blog at WordPress.com.