“É preciso ter caos e frenesi dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.”
Nietzsche
Antes descrever-me era fácil, bastava contar das emoções que vivi, das pessoas que conheci e dos amores que perdi. Daria para minimizar tudo em uma frase e caberia tudo ali, da primeira letra até o ponto final. Dispensava manifestações ou grandes pronunciamentos, o pouco englobava tudo. Hoje sou uma constante reticência e não adianta insistir para explicar aquilo que nem eu sei ao certo descrever. Já nem sei dizer se sou parte dos fatos ou se os fatos é que fazem parte de mim. Diria que sou um complexo conflito de interesses em uma invariável busca por algo que ainda nem existe. Então, não me diga apenas que eu mudei. Me explique em que ponto tudo começou a desandar. Mostre-me os erros que eu cometi e me diga como fazer diferente. Mas não me aponte os erros sem entender os motivos, descubra porque foram cometidos e qual a sua parcela de culpa em tudo isso. Quando você conseguir apurar as respostas para as suas perguntas, terá conseguido responder todos os meus questionamentos. E verá que eu não mudei apenas, mas que cresci. Nos bons e nos maus momentos, apenas cresci. Ainda continuo sim sendo aquela pessoa de sorriso fácil e olhar encantador que você tantas vezes descreveu. Ainda gosto de sorvete de baunilha e castanha caramelada. Aquele vício de dormir de meias ainda é incessante. Os milhares de livros continuam na minha estante e o hábito de escrever nunca me abandonou. Eu bem sei o que você anda dizendo por aí e só queria que entendesse que a minha estrada já não é mais perpendicular a sua e agora eu busco por outros limites, outros horizontes. Não apaguei simplesmente tudo o que eu fui, mas estou reconstituindo as minhas dores.


