Manuela Alves

August 18, 2008

SENTINDO COM AS PALAVRAS E FALANDO COM O CORAÇÃO

Filed under: Contos — manuelalves @ 11:29 pm

Foto: Juliana S.

“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível para os olhos”.

Saint-Exupéry

Deitou-se para dormir ainda um tanto atordoada, estava sem sono, mas precisava dormir. As obrigações do dia seguinte seriam cansativas e não seria prudente ficar indisposta. Virava de um lado para outro na cama e nem conseguia fechar os olhos. Sentia uma angústia, um aperto no peito e uma vontade de chorar incontrolável. Tentou mentalizar bons acontecimentos e até fantasiou algumas cenas que lhe fariam bastante feliz. As horas passavam, a sua angústia aumentava e o sono não chegava. Começou então a pensar naquela situação incomum. Como ajudar em algo que ela mesma não sabia como agir? Como servir de referência a algo que nem sabia o que era? Como exemplificar fatos e situações que nem chegaram a acontecer? Não negou ajuda, ao contrário, se colocou à disposição, mas por não saber dizer não a ninguém que por conhecimento de causa. Era estranho porque ao mesmo tempo que não sabia o que dizer, sabia o que gostaria de escutar. E começou a exercitar isso. Só dizer o que seria suportável ouvir. Só contristar até o limite que também a fizesse sofrer na mesma situação. Palavras duras já haviam sido ditas e costumava acreditar que estas não voltam atrás. Depois de proferidas instalam-se em nossa memória. Sentia vontade em dizer para seguir em frente, que às vezes confundimos sentimentos, que amor é mais que o simples desejo de ter.  Mas acabou por dizer que para tudo existe um jeito e que não se deve perder a esperança. Queria poder dizer que ninguém ama unilateralmente. Que toda essa conversa de pele realmente existe. Que para amar alguém, antes é necessário amar a si mesmo. E que muitas vezes é necessário um certo sacrifício para que a engrenagem funcione uniformemente. Sentia vontade de pedir que abandonasse esse ar de perdedor e que levantasse a cabeça, porque ninguém é melhor do que ninguém e é muito mais confortável falar olhando nos olhos. Mas principalmente precisava dizer que nem sempre podemos ter tudo que queremos, que este fato só nos torna mais fortes e experientes e que essa busca pela nossa constante felicidade está apenas começando. Diria até para não depositar expectativas demais em ninguém. Acreditar em si mesmo. No seu potencial. Ser feliz consigo mesmo. Olhar nos olhos. Falar a verdade. Sorrir sempre. Olhar em volta e perceber outros olhares. Escutar com atenção. Fazer novos amigos. Ver o sol nascer. Construir a felicidade dentro de si, porque às vezes é necessário diminuir para crescer. Precisava dizer tanta coisa e por hora ainda não sabia como agir. Tinha medo de magoar, pois só queria ajudar. Passou a mão no rosto, num último desespero em fazer com que a sua mente parasse de processar informações tão rapidamente. Precisava desligar-se. Precisava esquecer um pouco de tudo. Era inútil. Não adianta preservar e diminuir o pesado fardo de alguém se a carga for automaticamente transferida e naquele momento o seu peso era enorme.

 

August 11, 2008

DE FINAIS E RECOMEÇOS

Filed under: Contos — manuelalves @ 10:16 pm

Foto: Paula Hoots

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.”

Lispector

Estava tão perdido que nem conseguia olhar nos olhos. Vez ou outra forçava um sorriso tímido e meio sem graça só para descontrair. Buscava assuntos bem óbvios e tentava fazer o tempo passar. Quando já estava sentindo-se bem à vontade, falou. Uma frase tão carregada de dúvidas e medo que traduzia exatamente tudo o que estava passando naquele momento. Buscava argumentar o que não possibilitava argumentos. Estava meio perdido dentro de si mesmo e já não sabia se magoava ou se era magoado. Estava ali, no limite entre o bem e o mal, mas não conseguia orientar-se para definir o caminho a ser seguido. Queria apenas as coisas simples da vida, dessas que deixamos passar despercebidas. Não sabia como agir. Queria respostas para perguntas que não devem nunca ser feitas. Pensava demais e desistia de tomar atitudes importantes. Sentia necessidade em viver o momento como se fosse a última coisa a ser feita. Explicou a sua concepção em ver o tempo passar. Estava cansado de mentir e de deixar certas oportunidades de lado por medo. Mostrou-se decidido quanto a sua resolução, mas olhando bem no fundo dos seus olhos e captando cada sílaba de suas frases dava para perceber a relutância dele com ele mesmo. Tinha pavor de solidão e por isso, mesmo muda, eu ficava ali.

 

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