Manuela Alves

September 30, 2008

DE RISCOS E DESAFIOS

Filed under: Contos — manuelalves @ 9:39 pm

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.”

Clarice Lispector

Chega um tempo em que você pára para pensar em tudo o que já passou na vida. Velhos e novos tempos. Passado, presente e futuro. Aquela velha necessidade em colocar tudo na balança e ver o que é positivo e o que é negativo. Então você percebe defeitos com uma maior intensidade. Porque se preocupar tanto com a vida do seu vizinho quando a sua anda tão complicada? De que te serve essa cara fechada? Essa agressividade na voz? Esse olhar triste? Deixar de falar com alguém vai te deixar mais feliz? Busque novos valores, novas perspectivas. Esqueça os tons de cinza e coloque brilho e luz em seus dias. Utilize o seu sorriso mais intenso no rosto e deixe que as pessoas sintam a sua energia. Conheça novas pessoas. Cultive os velhos amigos. Aprenda a fechar os ciclos e nunca feche as portas, deixe-as entreabertas para se um dia quiser voltar ter essa possibilidade. Diga palavras doces, mas se precisar usar de palavras amargas que saiba como pronunciá-las. Seja sincero com os outros. Olhe nos olhos quando fala. Beije por amor. Respeite o seu corpo. Procure a sua alma gêmea. Aprenda a repartir. Faça uma oração. Tenha fé. Diga e saiba escutar um não. Ouse. Não fique aí nessa estaticidade, bem na ponta do abismo. Pule logo, o medo não vai te levar a lugar algum. Abandone a mania de subserviência, algumas pessoas simplesmente não merecem o seu esforço. Seja bom, não bobo. Seja alegre, não ridículo. Aprenda a conviver com as diferenças. Saiba calar e ouvir. Trace um novo objetivo. Exercite a sua mente. Saiba ouvir o seu coração. Sinta novos prazeres, aposte em novos amores. Observe com atenção o mundo ao seu redor. A vida é construída dos pequenos fatos, por isso não adianta ficar lembrando de algo que fez, mas que poderia ter feito diferente. Não adianta viver de passado. O ideal é aprender com os erros e procurar, cada vez mais, objetivar os acertos. As coisas podem não estar da maneira que sonhamos, mas o importante é trabalhar para isso. O passado já não nos pertence mais, mas o futuro está bem diante dos nossos olhos, então larga essa mania de miopia. Eu hoje prefiro enxergar o real. Chega de contos de fada porque ainda preciso correr atrás do meu happy end.

September 2, 2008

DE RENASCIMENTOS

Filed under: Contos — manuelalves @ 8:18 pm

 

Foto: Adhil Rangel

“Há uma palavra que pertence a um reino que me deixa muda de horror. Não espantes o nosso mundo, não empurres com a palavra incauta o nosso barco para sempre ao mar. Temo que depois da palavra tocada fiquemos puros demais. Que faríamos de nossa vida pura? Deixa o céu à esperança apenas, com os dedos trêmulos cerro os teus lábios, não a digas. Há tanto tempo eu de medo a escondo que esqueci que a desconheço, e dela fiz o meu segredo mortal”.

Clarice Lispector

Olhava e já não enxergava o mesmo brilho no olhar de antes. Procurava observar com atenção cada mínimo detalhe de seu rosto. Meio sorrateiramente voltava o olhar em sua direção só para ver se o surpreendia a lhe observar, mas a verdade é que essa brincadeira já não funcionava mais. O olhar dele agora fitava outros rostos, olhava em direção ao nada e fitava uma multidão de outras coisas e pessoas. Tantas vezes ela mesma pensou em avistar outros horizontes, conhecer novas pessoas, ir para outros lugares. Arquitetou vários novos planos e nunca teve a devida coragem para colocá-los em prática. Percebia agora uma nova chance. Estava sendo empurrada pela vida e precisava tirar algo de bom daquela situação. Voltou novamente o seu olhar e começou a observar os defeitos dele. E eram tantos. Não que fosse melhor que ninguém, sabia dos seus defeitos também, mas entendeu que ele sempre fora menos do que o que queria. Naquele momento teve vontade de voltar a ser simplesmente o que era. Queria se livre para falar do que gostava. Queria discutir sobre livros e filmes. Beber com os amigos e esquecer que o relógio continua a girar. Estava muito farta de todo aquele papo fútil. Cheia daqueles sorrisos falsos. Enojada de tantas frases feitas. Agora queria somente sentar em frente a sua TV e assistir todos aqueles dramas que tanto amava. Deixar escorrer as lágrimas que lhe custam tanto a sair dos olhos. Lavar a alma, cantar canções bobas e voltar a sorrir com graça e alegria. Queria romantismo. Palavras doces. Discutir sobre música e poesia. Criar conflitos sobre política e religião. Precisava de alguém que lhe olhasse nos olhos com amor. Que pegasse na sua mão com carinho. Alguém pra dormir de conchinha, sabendo que às vezes só aquilo a deixaria bastante feliz. Alguém presente, que lhe ligasse apenas para dar bom dia. Que lhe mandasse flores. Liberdade era muito pouco para tudo que ela queria, o seu desejo era de renascimento.

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