Foto: Daniel Fardin
“Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.”
Lispector
Vez ou outra, me pego lembrando do passado. E em especial nos últimos dias ando me lembrando daquele lugar tão cheio de luz e sentimentos de solidão. Mas não aquela solidão de abandono ou de tristeza. Uma solidão necessária. De reserva, de defesa, de conhecimento próprio. Uma solidão que era sorvida em doses mínimas e que deixava vestígios de quase um vício. Peguei-me lembrando daquelas paredes vazias. Do telefone no chão. Das janelas amplas que inundavam a casa com brisas agradáveis. Captei a velha coragem perdida. Guardada numa caixa embaixo da cama e que hoje eu nem sei mais onde encontrá-la. O desafio do dia-a-dia. A força que praticamente arrancava de dentro de mim mesma e que me reconstruía a cada queda. Ultimamente venho enfrentando os meus medos. Resgatando velhos fantasmas. Adestrando animais furiosos que vivem dentro de mim. Estou largando de lado essa mania de dizer não e dando mais oportunidade ao sim. Sei que preciso encostar a porta do passado. Abrir os portais do futuro. Olhar em frente. Trilhar novos caminhos. Mas a lembrança daquela lua que emoldurava a minha janela não me sai da cabeça. Não que o presente seja ruim, só não encontro mais a poesia dos detalhes. Como comida sem sal. Mar sem peixe e céu sem estrelas. Hoje eu só quero resgatar o simples da vida. Olhar nos olhos. Falar com o coração. Sentir com abraços. Preciso ouvir palavras bonitas. Ganhar um cafuné. Deitar e dormir como criança, sem problemas para assombrar meus sonhos. Preciso voltar a acreditar que príncipes encantados existem e que nada é tão complicado quanto parece. Reinventar-me para tentar acreditar em mim mesma, sem tantas cobranças. Tirar a venda que me tapa os olhos, permitir-me, ultrapassar os limites desse campo de força que me mantém presa a este espaço vazio e tão cheio de poesia. Entretanto, não me venha falar em falsas promessas. Já ouvi muitas delas. Já precisei acreditar em todas elas. Hoje só dou ouvidos a sinceridade. Somente aquela que vem do coração. Não. Nem adianta me fitar dessa maneira. Ando me mantendo longe dos venenos. Tomei muitas doses e veja só no que deu. Eu preciso de vida. E isso você nunca conseguiu me dar.
