Manuela Alves

December 10, 2008

PEDAÇOS DE MIM

Filed under: Contos — manuelalves @ 8:40 pm

adhil

Foto: Adhil Rangel

“Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE! Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes. Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos. Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:

- E daí? EU ADORO VOAR!”

 

Lispector

 

Não sou do tipo de pessoa que você queira conhecer, mas já que insiste é bom saber algumas verdades. Antes de mais nada, não gosto de prisões, abrace, ligue, mas me deixe livre. Adoro meias verdades, mas isso não significa que goste de mentiras. Fale apenas aquilo que você tem certeza de que não vai magoar ninguém. Se amo a poesia, isso não me faz alucinar por declamadores de textos baratos ou mesmo os confiscados dos clássicos da literatura. Se você acorda sorrindo e proclamando bom dia aos quatro ventos, entendo, mas peço que respeite o meu mau humor matinal, ele faz parte do meu despertar diário. Odeio receber ordens então não me lance olhares de reprovação, isso não me faz achar que sou perfeita, mas não tente me moldar ao seu agrado. Detesto atrasos e a cadência dos ponteiros que me roubam a juventude.  Estou sempre em busca de algo que talvez eu nunca venha a ter, mas o desafio me alimenta a alma. Tenho muitos amigos, alguns construíram muito daquilo o que eu sou hoje, portanto, nunca entre em confronto de preferência com nenhum deles, talvez você não venha a gostar da minha escolha. Gosto de praia, não do mar. Gosto de sombra, mas amo o sol. Admiro a poesia contida na foto. Relexo, luz, silhueta, cor, contraste. Sou livre e isso não significa que não viva em uma prisão. Sorrio quando estou triste e dou gargalhadas quando estou prestes a chorar. Vivo em meio a um turbilhão de dualidades, como na arte barroca, em constante amostragem do claro e escuro. Sou complexa, redundante, multifacetada. E você tão correto e invariável. Não percebe que não vamos muito longe? Ah! Já havia esquecido de esclarecer que não acredito em amor a primeira vista e nem em príncipes encantados. Já passei da idade de crer em happy end. Também não entro em histórias com roteiros de fábulas infantis. Fazer o que? Sou assim e às vezes nem eu mesma gosto de mim.

December 2, 2008

PARTIU PARTINDO

Filed under: Contos — manuelalves @ 8:13 pm

adeus1

“Tudo em ti era uma ausência que se demorava: Uma despedida pronta a cumprir-se”.

Cecília Meireles

 

Fechou mais uma vez os olhos, como que tentando apagar da sua mente as últimas decepções, mas tudo que conseguiu foi lembrar-se de tantas outras, já esquecidas ou parcialmente encobertas pela poeira do tempo que ajuda com sua breve e fugaz passagem. Estava fazendo, mais uma vez, a sua mala. Tentara tantas outras vezes abandonar aquela situação que já nem conseguia mais contar nos dedos das mãos. A verdade é que das outras vezes nem chegou a fechar a mala, a indecisão sempre tomava conta e a emoção subjugava a razão. Dessa vez era diferente. Havia disposição em esvaziar as gavetas, em alinhar as roupas naquele objeto que, no momento, era a passagem para a sua libertação. Não jogava apenas roupas na mala, ali estavam também as decepções, frustrações, tristezas, egoísmos e tudo mais que acabou por ajudar a por um ponto final em uma relação que sempre foi tão reticente. Agora se despedia de um passado quase feliz. Olhava em volta e já não reconhecia aquele lugar como seu. Fitava o espelho e não se via. Quando foi que aqueles primeiros fios de cabelos brancos haviam nascido? Onde ficou perdida a sua juventude? De repente, teve a sensação de haver dormido um sono profundo nos últimos anos. Já nem sabia mais do que gostava. Fechou a mala numa mistura de raiva, em haver se perdido, e pressa, para reencontrar-se. Tirou as chaves do bolso e depositou ao lado da cama. Deixou um recado em que se lia: “liberdade é pouco perto de tudo que você me deu. Mas hoje, liberdade é tudo o que eu quero…e você não pode me dar”. Cruzou a sala com a sua mala na mão, bateu a porta e nem olhou para trás. Já estava livre e nem sabia, porque a liberdade só vem para aqueles que primeiro libertam as amarras do coração.

Blog at WordPress.com.