Manuela Alves

February 10, 2009

VELHAS NOVIDADES

Filed under: Contos — manuelalves @ 9:08 pm

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Foto: Mari Hummel

“Não sejas o de hoje.

Não suspires por ontens…

não queiras ser o de amanhã.

Faze-te sem limites no tempo.

Vê a tua vida em todas as origens.

Em todas as existências.

Em todas as mortes.

E sabes que serás assim para sempre.

Não queiras marcar a tua passagem.

Ela prossegue: É a passagem que se continua.

É a tua eternidade.

És tu. “

Cecília Meireles

 

Por hora eu só buscava um pouquinho de entendimento e nada mais. E talvez isso decepcione você, mas eu não sou essa pessoa controlada e tão certa de mim. É que nas horas de desespero, visto essa fantasia de fortaleza instransponível. Mas basta um mínimo sinal de ataque para as muralhas irem todas ao chão. Você também deveria saber que sofro com o desconhecido. Tenho verdadeiro pânico do inesperado. Odeio mudanças e não me adapto facilmente a novos ambientes. Primeiro por não costumar dar o benefício da dúvida para as pessoas e depois porque me apavoro com sorrisos sinceros. Também não acredito em bondades despretensiosas, estou sempre em busca da segunda intenção. Da verdadeira intenção. Esses dias, ando dormindo apavorada, acordo no meio da noite rezando para que o sol demore a nascer e talvez durante o dia, me pegue, vez ou outra, torcendo para os ponteiros se deslocarem com maior urgência em meu relógio. Às vezes penso em ligar pra você. Falar amenidades. Saber dos seus dias e contar um pouco dos meus. Não tudo, apenas os capítulos mais sãos. Mas você vai saber disso e também vai saber que eu tenho medo, só que o meu medo maior é começar a gostar de toda aquela renovação. Deixa os dias ficarem comuns novamente, talvez eu possa te ligar e dizer que tudo aquilo já está velho e que agora eu posso começar a gostar.

 

 

TAPANDO BURACOS

Filed under: Contos — manuelalves @ 7:52 pm

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Foto: Danielle Marie

“O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.”

Nietzsche

 

 

Ultimamente andava tentando tapar os buracos vazios que ainda existiam dentro si. Buscava enfrentar seus medos, curar suas feridas, suportar suas dores. Já havia sido muito magoada e de repente aquele sorriso que teimava em manter estampado no rosto já não fazia mais sentido algum. Era uma farsa. Imaginava uma maneira de modificar as coisas, recuperar a felicidade que permitira um dia lhe roubar. Não sabia ainda por onde deveria começar, mas tinha certeza das coisas que queria pra si. E não eram muitas. Queria um pouco de sossego, para lidar com mais precisão com a rotina diária. Precisava de paz, para aliviar um pouco a alma. Queria tempo, para não virar escrava dos ponteiros do relógio. Sobretudo, queria acalmar o coração, que estava tão ferido e precisando de cura urgente. Pedia somente aquilo que era possível. Sonhava com o dia em que pudesse ser compreendida, amada e respeitada. À sua maneira, sem precisar alterar sua essência. Sem ter que ajustar a sua rotina em favorecimento de alguém. Não queria mais disputar amor, mas ter a certeza de que já havia loteado o seu espaço. Queria amor de muito. Sincero, fiel, apaixonado e presente. Estava cheia daquelas meias verdades e sentimentos efêmeros. Agora precisava apenas tapar os buracos.

February 3, 2009

RESTOS DE UM AMOR ETERNO

Filed under: Contos — manuelalves @ 6:39 pm

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Foto: michael hills

“Alguns dizem que o mundo acabará em fogo,

Outro dizem que acabará em gelo.

Do que já provei como desejo

Fico com aqueles que são a favor do fogo.

Mas se tiver de acontecer duas vezes,

Penso que sei já o suficiente sobre o ódio

Para dizer que a destruição pelo gelo

Também é boa

E há-de bastar.”

 

Robert Frost

 

Às vezes nos prendemos tanto a um relacionamento que já está morto, que nem nos damos conta das novas possibilidades que surgem constantemente em nossas vidas. Olhava mais uma vez aquela carta de despedida e ainda não se sentia preparado para compreender o motivo dela está ali, em suas mãos. Ela afirmava que também sentia sua falta. Mas que ele precisava livrar-se dos fantasmas do passado. Sabia que estava em meio a sentimentos conflituosos. Mas havia optado por estar com ela. Acreditava que o relacionamento dos dois ainda valia a pena. Tudo sempre fora tão fácil pra eles. Sem brigas, crises de ciúmes ou discussão de relação. Mas a verdade é que já vinha de uma relação que deixou em seu coração feridas incuráveis. Lutou muito para deixar tudo pra trás, refazer a vida, conhecer novas pessoas. Em alguns momentos chegou a ter a impressão de que estava curado. Mas bastou um reencontro para a ferida recomeçar a sangrar. Diferente de seu relacionamento atual, essa era uma história cheia de altos e baixos, nada nunca foi fácil, era como se a vida insistisse em dar o roteiro e os finais nunca eram felizes. Mas sua respiração parava ao escutar sua voz. Seus olhos não conseguiam desviar do seu olhar. O sorriso vinha fácil em sua presença. Ele já estava se acostumando a calmaria e a tempestade chegou. Estava entre amor e amizade. Fogo e gelo. Rock e bossa nova. Emoção ou razão. Nem sempre gostamos de novas histórias. Nem sempre procuramos um final feliz. Nem sempre sequer procuramos um fim. Às vezes basta ser palavra que consola. Olhar que alivia e sorriso que surpreende.

 

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