Manuela Alves

June 15, 2009

CORAÇÃO DE MEDO E CORAGEM

Filed under: Contos — manuelalves @ 10:37 pm

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“Já conheço os passos dessa estrada/Sei que não vai dar em nada/Seus segredos sei de cór/Já conheço as pedras do caminho/E sei também que ali sozinho/Eu vou ficar, tanto pior/O que é que eu posso contra o encanto/Desse amor que eu nego tanto/Evito tanto/E que no entanto/Volta sempre a enfeitiçar/Com seus mesmos tristes velhos fatos/Que num álbum de retrato/Eu teimo em colecionar.”

 Retrato em branco e preto – Chico Buarque

Só queria passar despercebida em meio a multidão e viver sem compromissos ou grandes expectativas. Buscava a leveza das coisas nos sorrisos sinceros e em lágrimas de arrependimentos. Não desejava além do que qualquer pessoa pode sonhar para si. Pedia amor. Amor verdadeiro, sincero e recíproco. Queria romance, flores, palavras de conforto. Queria segurança, colo, afago no rosto. Andar de mãos dadas, deitar de conchinha, massagem nos pés. Sonhava em ser surpreendida, com uma visita inesperada no meio de uma madrugada chuvosa e que fosse só para matar a saudade. Queria ser conforto, alicerce e inspiração de alguém. Precisava acreditar sinceramente nas palavras que de tantos escutou, mas que em nada acrescentaram em sua vida. Se engana fingindo amor e vivendo em um eterno devaneio. Diz experimentar da vida e mata a essência dos próprios sentidos. Insiste em tomar para si a responsabilidade dos fatos e acaba com qualquer possibilidade de sonhos concretos. Busca por sentimentos puros e verdadeiros, mas ao menor sinal de sua existência, desdenha e parte para outras buscas. Nem mesmo se dá conta das tantas vezes que essa procura quase chegou ao fim. Talvez nem saiba mais o que tanto procura ou quem sabe perdeu a vontade de encontrar. Porque amar é bom, mas também deixa um vazio. Algo que você não sabe como e nem se consegue preencher. Dói. Em proporções miúdas e contínuas e em vários lugares. No corpo, na alma e até nos pensamentos. Deixa marcas, que por mais que você tente, nunca vai conseguir apagá-las. Impregna com cheiros que vão ativar para sempre uma parte das suas lembranças e sabores que o paladar nunca vai poder reproduzir. Amar é para todos, mas nem todos estão verdadeiramente dispostos a sentir. É risco e nem sempre estamos dispostos a pular de tão alto.

June 8, 2009

CERTEZAS…

Filed under: Contos — manuelalves @ 10:17 pm

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Foto: AlexShot

“Se queres elevar-te, exercita a arte de esquecer.”

Nietzsche

Foi como se o vento batesse com toda a sua força a porta da casa vazia e só houvesse restado o eco do silêncio. Toda aquela omissão de ruídos gritava bem fundo aos tímpanos e, ainda assim, parecia a mais terna canção de ninar. Fosse em outros tempos, bem no passado, aquele sossego bem seria um incômodo, mas hoje era alívio. Nem bem sabia como havia alcançado toda aquela paz bem diante do caos, mas o contraste era oportuno e agradável. Cansou de brincar de claro e escuro, amor e ódio, bonito e feio, fé e justiça. Deixou de divagar e dar tanta importância aos seus devaneios. Abandonou a inocência das ações, a idéia da bondade alheia e simplesmente parou de sentir. Sem dor, pena, amor, tristeza, paixão. Não tem medo e nem compaixão. Saudade ou mesmo felicidade talvez nem consiga mais descrever. Vive bem, porque não sente e não é triste e nem alegre. Carrega consigo apenas lembranças de um dia que foi e a certeza de que um novo ainda virá.

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