Manuela Alves

August 10, 2009

O COMEÇO DO FIM

Filed under: Contos — manuelalves @ 10:03 pm

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“O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba. E é necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não suporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E enxugados os olhos, aberta a janela, lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos.”

Ferreira Gullar, in Sobre o Amor

Por acreditar que possuía a melhor parte do coração dela, não se preocupava em realizar a manutenção ou efetuar ações que o fizessem permanecer saudável. Dizia amá-la mas, por imaturidade e ânsia em sugar o máximo que a vida nos oferece, subjugou os sentimentos alheios e protelou ao máximo a transparência em se mostrar disposto. Cada vez mais ausente, foi matando aos poucos um sentimento puro e verdadeiro. Fez sofrer e minimizava os fatos, como se não estivesse fazendo nada de errado. Às vezes trocamos mesmo algo valioso por quase nada, barganha que não nos damos conta na hora e que acaba logo. O tudo torna-se nada em fração de segundos e nem sempre é possível realizar a troca de um produto avariado. Quase nunca nos dispomos a trocas. Esquecer ações que nos fazem sofrer não é fácil. Ego ferido, coração machucado e lágrimas vertidas não são irrelevantes. Após a separação inevitável o desgaste se fez maior. Libertação para ele e aprendizado pela dor para ela. Mas as coisas vãs da vida duram pouco. Os amigos somem rápido. As bebedeiras já não são mais tão divertidas. Ficar por ficar, todas as noites, também cansa. Aquela vontade de abraçar o mundo com as mãos ficou perdida em meio a felicidade irreal. Evaporou como tudo que é fugaz. Só que o mundo não pára esperando que erros e más atitudes sejam percebidos. Agora ele sabe que a escolha que fez não foi a mais feliz. Precisava tanto experimentar a efemeridade das coisas quem nem olhou para trás ao bater a porta. E agora, ela tem fechaduras e cadeados, para que nenhum malfeitor possa entrar. Só convidados tem acesso e ele, inacreditavelmente já não era bem vindo.

August 9, 2009

A FUGA

Filed under: Contos — manuelalves @ 12:00 pm

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Foto: Lúcia Letra

“Viver é só uma questão de dias entre seus lábios

E milhões de vícios (…)

Sou alguém que foge antes que o mundo possa me entender.”

Picassos Falsos, in Bolero – Humberto Effe

Me limitava apenas a ouvir sua versão da história e em certos momentos dava para sentir o seu desespero em ser compreendido e a sua crença naquelas mentiras inventadas. Talvez por desespero, tomava para si como verdade absoluta aqueles fatos irreais. Gostaria mesmo de poder depositar confiança em toda aquela explicação, mas estava de fora daquela situação e podia enxergar além das palavras e bem dentro de seus sentidos. Procurava mesmo ser compreensiva, mas naquele momento aquilo não lhe bastava. Queria apoio incondicional e eu não podia oferecer. Gostava de acreditar-se disponível, mas a verdade é que postava-se cada vez mais distante. Sumia de tempos em tempos e quando surgia, era sempre para abrandar o seu próprio ego. Já não trazia mais aquele sorriso no rosto e aquela vontade de cuidar e cultivar os seus. Os objetivos ficaram perdidos em meio ao caminho que percorrera por todos esses meses vazios. E a falta de notícias, acabara produzindo um esquecimento gradual daqueles que o estimavam, e apagava-se mais um pouco a cada dia. Dizem por aí que plantando em terra fértil, tudo brota e agora eu só consigo enxergar terra árida. Lote abandonado e seco como nos sertões. Sem vida, como o reflexo dos seus olhos e sem utilidade, como as mentiras que você inventa.

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