Manuela Alves

October 22, 2009

DE PONTOS FINAIS

Filed under: Contos — manuelalves @ 12:28 pm

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“O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto”.

Fernando Pessoa

Acordou com uma sensação de que o ontem não existiu, uma certeza que era capaz de desconstruir todos os devaneios que um dia visualizou. Era como se houvesse acordado de um sono profundo e falso. Agora a realidade batia a porta e a obrigava a despojar-se de todos os contos de fadas. Necessitava com todas as suas forças de uma grande dose de realidade. Abandonar as coisas de menina e mergulhar de cabeça na vida real. Obedecer ao relógio. Tirar o sorriso bobo da cara e assumir um ar mais sóbrio e confiante. Organizar a agenda e dar mais valor aos estudos e ao trabalho. Precisava sair da estagnação e da ilusão de que tudo são flores, festas e sonhos. Constituir família, carreira e histórias. Traçar metas e segui-las. Abandonar amores que nunca a levaram a nada, porque merecia amor de verdade. Amor palpável e sincero. Amor adulto e comprometido. É verdade que desfazer-se de algumas lembranças lhe doeram no fundo da alma, mas entendia que era preciso seguir um novo objetivo. Deletou e-mails, telefones e rasgou fotos. Olhou com desapego cada objeto que remetesse alguma lembrança de dependência de algo ou alguém. Queria traçar novas linhas e escrever novas histórias, com desfechos de final feliz. E então, ser protagonista e não mera coadjuvante da própria biografia.

October 15, 2009

JOGANDO OS DADOS

Filed under: Contos — manuelalves @ 1:23 pm

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Foto: Annai

Deixa-me perder a hora / Pra ter tempo de encontrar a rima / Ver o mundo de dentro pra fora / E a beleza que aflora de baixo pra cima / Ó meu Pai, dá-me o direito / De dizer coisas sem sentido / De não ter que ser perfeito / Pretérito, sujeito, artigo definido / De me apaixonar todo dia / De ser mais jovem que meu filho / E ir aprendendo com ele / A magia de nunca perder o brilho / Virar os dados do destino / De me contradizer, de não ter meta / Me reinventar, ser meu próprio Deus / Viver menino, morrer poeta.

 Alma Nua – Vander Lee

Existem pessoas que acreditam em inferno astral, eu prefiro acreditar em senso de oportunidade. Ou estamos dispostos a dar vazão às nossas necessidades ou não. Simples assim. Há aqueles que desistem diante do primeiro obstáculo e os que cansam da luta após vários nocautes. Mas também há aqueles que mesmo correndo contra o vento, superam todas as próprias expectativas, vencem o cansaço e cruzam a linha de chegada. Hoje percebo que já me coloquei em todas as posições. De dissidente, de perdedora e de vitoriosa. E chega um certo momento em nossas vidas em que somente as vitórias são aceitáveis. Porque já temos conhecimento para domar o medo e experiência para superar os obstáculos. Hoje eu não busco mais os sorrisos forçados e palavras bonitas. Quero apenas sinceridade e espontaneidade. Porque tenho ânsia em aprender e mesmo que a verdade me machuque, preciso sentir para optar pela continuidade do erro ou a evolução do aprendizado. E ultimamente nem as minhas próprias vontades me bastam. Por isso preciso me jogar em oportunidades nunca antes planejadas. Sem idealizações ou paixões platônicas. Quero viver apenas o momento, mesmo que o passado me tome por vezes de assalto. Desejo pensar apenas no hoje e não avaliar o que pode acontecer amanhã. Sem medos ou anseios. Me libertar da cadência das horas, da passagem dos dias e das agendas diárias. Viver por viver e me apresentar para um salto no escuro, um tapa na cara ou um coração partido. Não economizar na ação pensando na reação, porque prefiro sarar as dores da alma do que não saber nunca o que é ter sentimento.

October 1, 2009

FELICIDADE enFIM

Filed under: Contos — manuelalves @ 10:04 pm

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Foto: Pedro Silva

“Essa morte constante das coisas é o que mais dói”.

Caio Fernando Abreu

Tem dias em que voltar para casa é a decisão mais difícil a tomar. É aquela dose de realidade que nem sempre estamos dispostos a enxergar. O silêncio que tantas vezes aflige e a solidão que machuca de uma maneira tal que não sabemos onde e nem como sarar. A saudade aperta mais forte e nos deixa como que sufocados em nós mesmos, como um afogado que após lutar contra o inevitável, se entrega à correnteza das águas. Não tem para onde correr. Não tem como deixar de pensar. Incomoda, desnorteia e enlouquece. Tem dias em que não adianta fechar os olhos para tentar esquecer. As lembranças vagueiam e descortinam o teatro da vida. E já não adianta sorrir para tirar a atenção dos olhos que marejam. Tem dias em que precisamos ser tristes e viver intensamente a nossa dor. Para chegar ao fundo do poço e perceber que não é o fim do mundo e que uma hora tudo isso passa. Porque a vida é construída de renascimentos. Hoje eu posso dizer que estou um tanto morta, com o coração pequeno e as lágrimas prestes a cair, mas a certeza de que em breve vou renascer conforta a minha alma.

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