CHUVA É DESCULPA PARA SAUDADE

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“Ausência física, ausência da voz e do cheiro, das risadas e do piscar de olhos, saudade da amizade que ficará na lembrança e em algumas fotos”.

Martha Medeiros

Não sei se pelo dia cinza, que sempre nos leva de volta ao passado, ou se pela calmaria que anda me invadindo nos últimos dias, hoje eu tive um momento “de volta aos bons tempos”. Mais que pessoas, lembrei de histórias felizes. Mais que amores, lembrei de amigos queridos. Gente que não vejo há séculos, gente que não tenho mais notícias e gente que, por força do destino, não verei nunca mais. Lembrei de brindes, viagens, sorrisos e histórias tão bem vividas. Se tem uma coisa que eu posso dizer, com total consciência de que é a mais pura verdade, é que eu tenho os melhores amigos desse mundo. Infelizmente, a distância afastou o convívio com muitos deles, mas nem por isso a importância deles em minha vida foi diminuída. Eu posso não ligar com frequência ou posso mesmo nem ligar e nunca dar notícias, mas sempre lembro de quem me é ou foi importante. Infelizmente, a vida é feita desse imediatismo constante e as intenções acabam sendo deixadas para segundo plano. Na nossa cabeça, sempre vai haver um depois. Mesmo a experiência tendo nos provado, por diversas vezes, que isso não é verdade e que o depois pode ser muito tarde. Então, esse texto pode ter vindo com um certo atraso ou mesmo tarde demais, mas o fato é que hoje me bateu uma saudade imensa do passado. Saudade daquele apelido, que ainda hoje eu odeio, o qual somente uma pessoa no mundo podia me chamar sem que eu me importasse e que hoje me deixa triste cada vez que algum desavisado pronuncia. Saudade do sol que batia naquela sala vazia, onde, mesmo sem nada, eu sentia que tinha tudo. Saudade das reuniões de domingo, só com os mais chegados e onde bastavam aquelas pessoas para virar uma grande festa. Saudade daquele bar e da tradição das quintas-feiras, com as mesmas pessoas e onde a risada era garantida. Saudade da disponibilidade para tudo, da pouca responsabilidade, do desapego e até da inocência e credibilidade das pessoas. Porque, cedo ou tarde, a vida acaba nos “armando” para tudo e nos transformando em pessoas práticas. Somem as ilusões, os devaneios e o romance. Ficam as verdades, a praticidade e o anti-herói, que não é nenhum príncipe, mas que por ora serve. Deixamos de sonhar para começar a viver. Porque qualquer dose de realidade é capaz de neutralizar uns bons indícios de desvarios. E a saudade? Vai ficando para esses momentos de chuva e muito trânsito, onde o tempo parece se arrastar.

 

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